CRÔNICA - O procedimento
Meu primeiro dia de trabalho. Não podia me conter de empolgação. Eu tinha estudado todas as teorias e estava pronto para aplicá-las na prática. No primeiro contato, meu chefe me disse: "Bom dia. Pode se sentar ali".
Uma mesa virada de frente para a parede. Não importava. Eu tinha meu computador e muitas ideias. Era o suficiente. Do meu lado, um colega antigo de casa, que perecia estar no "piloto automático". Não falava com ninguém e não tirava os olhos do computador. Pensei comigo mesmo que eu não ficaria daquele jeito.
Nos primeiros meses eu já dominava o trabalho. O próximo passo seria inovar. Fiz algumas anotações para mudar alguns procedimentos. No dia seguinte, fui apresentá-las ao meu chefe. Ele ouviu tudo e ao final disse: "Esse não é o procedimento. Você deve seguir o procedimento".
Confesso que fiquei um pouco frustrado, mas isso não poderia me abalar. Devia ter feito alguma coisa errada. Talvez eu não tivesse me esforçado o suficiente para que as ideias coubessem no procedimento. Conversei com aquele colega do lado e ele pareceu não entender bem do que eu estava falando. Notei que ele ainda não me olhava. Nem falava comigo.
Voltei para o meu computador. Passei a trabalhar mais, até que minhas mãos se confundiram com o teclado. Entrava mais cedo e saía mais tarde. Se eu conseguisse mais reconhecimento, talvez minhas ideias pudessem ser consideradas.
Depois de um tempo, com mais experiência e mais conhecimento, eu tinha ideias mais abrangentes e soluções que diminuiriam custos e aumentariam a satisfação dos clientes. Preparei um projeto e fui apresentá-lo para meu chefe. Ele ouviu tudo e ao final disse: "Esse não é o procedimento. Você deve seguir o procedimento".
A cada ano eu fazia uma nova tentativa. Trabalhei a ponto de minha cabeça colar no monitor. Não importava. Eu tinha minhas ideias e uma hora eu teria a oportunidade de implementá-las. Eram tantas que passou a ser impossível diminuí-las para que coubessem no procedimento.
Não sei bem quando aconteceu. Certo dia, enquanto trabalhava, percebi que estava do lado de dentro do computador. De repente, eu era uma pasta com o meu nome. Finalmente aquele meu colega pôde me ver. E então ele me deletou.
Willian Gallera Garcia, analista judiciário, em Londrina.
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





