CRÔNICA - O privilégio foi nosso, Mr. Newman
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terça-feira, 30 de setembro de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge 
Não, a morte não sorri para nós, como muita gente filosofa abatido por aí, querendo fazer dela nossa amiga. Na verdade ela é inimiga mortal sim, muito mal-humorada, sempre carrancuda, azeda e impossível de negociar. Turrona mesmo. Irredutível. Inclusive para grandes atores, legendários e de olhos azuis e sorriso irresistível.
Morre Paul Newman, este ícone elegante que por 60 anos foi capaz de namorar a tela como nenhum outro. 83 anos de uma vida que é alguma coisa mais que lenda de cinema: uma das personalidades mais importantes do século XX, artista que fez de sua forma de expressão uma forma de vida. E um modo de entendê-la. Paul Newman era um ator com dom ingênito e completamente natural, e um homem complexo, inteligente e enigmático.
Se boa parte da história do cinema é a história dos rostos que ocuparam o formato gigante das telas cinematográficas, Paul Newman ocupa um fotograma dourado. Ou vários. Porque sua irretocável beleza de Adonis, que substituiu James Dean quando este morreu, em ''Marcado pela Sarjeta'', se transformou na serenidade madura de ''Golpe de Mestre'', na dignidade das rugas de ''O Veredicto'' e na mais recente melhor idade de ''Estrada para Perdição'', sua maravilhosa sinfonia de cisne.
Como os melhores vinhos, Paul Newman só melhorou com o tempo. Ainda que nos primeiros anos se deixasse ver com o repertório de tics stanislavskyanos do Actor's Studio, aos poucos foi se livrando desta overdose de emoções cênicas para atingir a economia gestual e a eficiência interpretativa que o fizeram emular com outros mágicos na frente das câmeras.
E atrás delas soube também deixar um legado precioso, não em quantidade, mas em qualidade que se viu em pequenos e humildes retratos de dramas provincianos como ''Rachel, Rachel'' e ''O Efeito dos Raios Gama nas Margaridas do Campo'' - obras dirigidas por um verdadeiro humanista. E tem, neste meio tempo, a gestão humanitária de sua fortuna em favor de carências diversas. E ainda encontrava tempo para bater duro na politicagem suja de seu país - um de seus maiores orgulhos era ter seu registro no FBI como um ''perigoso liberal'', a pedido de Nixon.
A melhor homenagem a este ator que tantos encantos trouxe a todas as fases de minha vida é rever seus grandes desempenhos, de um ator de raça e técnica, de gênio e voluntariedade. Experimente você também um desses: ''Desafio à Corrupção'', ''Hombre'', ''Rebeldia Indomável'', ''O Veredicto'' e ''A Cor do Dinheiro''.
Anteontem, as filhas de Newman leram uma carta escrita por ele ainda durante a travessia da ponte, quando em casa já esperava pelo desenlace. Ao final, a frase que sintetizou a vida de um ator completo, uma grande figura, um grande homem: ''O privilégio foi meu, ter estado por aqui''. Lamento desapontá-lo, Mr. Paul Newman, mas o privilégio foi todo nosso.
CARLOS EDUARDO LOURENÇO JORGE é jornalista
Crônicas é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 50 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato e foto para [email protected].


