CRÔNICA - O OLHAR AZUL
Ela era uma mulher comum. Bonita, inteligente e portadora de lindos olhos, grandes e azuis. Quem olhasse para ela não perceberia nada de diferente mas olhando aqueles olhos azuis como o céu perceberia que eles carregavam uma grande tristeza.
Tinha vivido uma vida que não era a dela. Dedicara-se a um lar, à construção de uma família feliz, mas não conseguira. Havia falhado em sua mais doce ilusão.
Hoje, vivia de migalhas. Perdera amigos, perdera o maior e melhor amigo de uma vida. Dedicara mais de 24 anos nesta empreitada e hoje possuía apenas uma família destroçada pelos rancores e mágoas.
Procurou ser uma boa mulher. Dedicada, amorosa, cumpridora dos seus deveres como mãe, esposa e companheira, mas falhara.
Doente e sofrendo de uma depressão profunda deixou que tudo terminasse.
Não se sentia a única culpada, pois perdera o apoio daqueles que julgava amigos incondicionais. Agora deixava para trás aquela vida e mesmo com o coração partido, buscava reerguer-se.
Mas os olhos, ah... Os olhos, estes não mentiam. A profundeza daquele olhar dizia tudo. Quando o seu belo castelo de felicidade veio abaixo, como se derrubado por um furacão, ela acreditou que poderia reconstruí-lo, achou que ele era alicerçado em terra muito firme.
Sentou em frente a ele e pensou... Por onde começarei?
Com o passar do tempo ela foi tentando reconstruir uma parede, levantar o que tinha caído, mas cada vez que fazia isso não demorava muito para ver tudo ruir novamente.
Mais uma vez, sentou-se em frente a toda aquela destruição e viu que era uma árdua tarefa para uma só pessoa, onde estavam os moradores daquela casa para ajudá-la?
Alguns bons e velhos amigos, amigos verdadeiros se apresentaram para tentar ajudar, fizeram o que puderam, mas a destruição era muito grande, e eles não puderam fazer muita coisa.
E lá ficou a mulher dos olhos azuis, olhando o seu passado ruído.
Era tempo de começar a construir em outro lugar. Aquele não lhe pertencia mais. Resolveu deixá-lo pra trás. Procurar alguém que lhe desse a força que necessitava para começar de novo.
Não ia deixar-se abater, fizera tudo o que podia. Lutara até não ter mais forças. Ninguém poderia dizer que ela não fizera nada.
Era tempo de ser feliz novamente.
Esvaziar os olhos azuis das tristezas e procurar alegrias que pudessem preencher o vazio daquele olhar. Devolver-lhe o brilho. Um novo amor talvez fosse a solução. Compartilhar o muito de vida que possuía com alguém que lhe desse o valor merecido.
Conservar as velhas e boas amizades, mas buscar novas. Buscar pessoas que não quisessem só sugar o que ela tinha de bom e depois descartá-la como um sapato velho que não estivesse mais na moda ou que lhes causasse calos nos pés.
Não podia contar com muita gente, pois até aqueles que compartilharam com ela todos estes anos, não lhe ajudavam. Ao contrário tentavam fazer com que ela desistisse e minavam suas esperanças.
O que fizera ela de tão criminoso? Por que cabia a ela assumir toda a responsabilidade daquele desastre? Era ela a única responsável por aquela destruição?
Não, temos que enxergar que ela fora levada até aquele momento. Quem poderia imaginar que o seu castelo era tão frágil... Ela acreditava que ele fosse forte o bastante para suportar todas as intempéries das estações. Contudo, apesar de ter resistido a outros desastres, não suportara aquele. Ruiu, muito rapidamente diante dos seus olhos azuis.
Nada do que ela fez foi capaz de impedir isto, então apesar da frágil aparência, ela iria mostrar a todos que era capaz de levantar-se, que era capaz de erguer não só ela própria, como também o seu castelo.
E desta vez iria caprichar... nada derrubaria sua nova morada, pois ela era forte... Era uma mulher!
Deyse Chagas, estudante em Maringá





