CRÔNICA - O milagre de natal
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 19 de agosto de 2008
Márcio Américo 
Era um garotinho realmente cético. Aos três anos de idade já não acreditava na cegonha e nem na transubstanciação de valores. Ninguém sabia de onde ele tirava tanto ceticismo e amargura. Surpreendeu a todos em seu 5º aniversário ao comentar cínico: quantos mais? Os pais ainda tentavam incutir nele alguma fantasia, mas era inútil, o seu ceticismo estava determinado.
Coelhinho da páscoa para ele era coisa que nem se dava ao luxo de comentar. Já tinha visto e ouvido no National Geografic e no Discovery Channel que coelhos não põem ovos, ainda mais de chocolate. Natal pra ele estava fora de cogitação, havia chegado a esta conclusão após exaustivos cálculos matemáticos que apontavam grandes furos na teoria de papai Noel. Como poderia um velhinho de barbas brancas visitar numa só noite todos os lares do mundo? Através de equações físicas concluiu que para o tal velhinho de barba branca finalizar suas entregas num prazo aproximado de doze horas, deveria correr com seu trenó à velocidade da luz, o que culminaria com a desintegração do mesmo, incluindo o velhinho. Nem mesmo desenhos animados ele assistia, sabia que aquilo não passava de um porrilhão de imagens sincronizadas dando a ilusão de movimento, nem mesmos os modernos processos de animação o animavam, concluía triste que Shrek era apenas uma equação, um amontoado de pixels piscando na tela. Nada o emocionava. Nada.
O pobre menininho descrente na verdade queria apenas ganhar de seus pais uma flauta transversal, destas de metal. Mas o menino cético jamais verbalizou tal pedido, tinha certeza de que ouviria dos pais: No natal papai Noel trará uma pra você.
Pois se aproximou a noite de natal, o menino cético recolheu-se ao seu quarto onde dormia sozinho, no escuro, já que como ateu não cria num mundo sobrenatural, para ele o Bicho Papão, a Cuca e até mesmo o famigerado Monstro que mora embaixo da cama eram apenas manifestações de uma psique doente e manobrada por forças opressoras. O menino já havia assistido na GNT inúmeros documentários abordando o tema charlatanismo e ilusionismo, o que o levou a solidificar seus ideais materialistas. Por alguns instantes dava pena ver um menino tão cético e cujo único desejo era apenas ganhar uma flauta transversal, destas de metal.
Naquela noite que antecedia o natal o menino descrente dormia o sono dos céticos quando foi repentinamente acordado por um barulho na sala. Por não ter medo de nada ele levantou-se, caminhou lentamente até lá, o seu temor era apenas o de encontrar-se frente a frente com um marginalizado, um flagelado do milagre econômico brasileiro, um homem improdutivo e privado de capital capaz de invadir uma casa e dali furtar algo de valor para, quem sabe, comprar um presente para o filho que no mínimo alimenta idéias retrógradas como a de papai Noel.
Porém, ao chegar à sala, o que o menino viu era algo que o marcaria por toda a sua vida. Em pé, próximo à árvore de natal, estava um homem, um ancião de bochechas rosadas, barba branca e hirsuta, tinha nas mãos uma flauta transversal, destas de metal.
Ao ver o velho de cabelos e barba branca, já sentindo lágrimas precipitarem-se de seu olhos céticos, deu passos tímidos em direção ao velhinho que sorria. No silêncio daquela sala, naquela madrugada de natal, o menino dava pequenos passos em direção ao velhinho que cofiava sua barba branca e ria fazendo moverem-se suas bochechas rosadas, eram pequenos passos para um menino mas um passo gigantesco para um cético. Mesmo sem crer em natal, em papai Noel, o menino postou-se frente ao homem de barbas brancas, olhou-o nos olhos e reunindo as forças que ainda restavam conseguiu balbuciar:
- Sivuca!
MÁRCIO
AMÉRICO é ator, dramaturgo e escritor


