CRÔNICA - O mesmo olhar
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terça-feira, 12 de maio de 2009
Irene Gomes Martins 
A aurora desponta no horizonte. A bola amarelo-ouro vai, aos poucos, ganhando contornos definidos e os primeiros raios se refletem no vermelho vivo das rosas. Seu pensamento atravessa o vidro da janela do ônibus... Vê a mulher que dorme o sono reparador do fim da madrugada, mas antes mesmo do sonho esvair-se com as brumas da noite, o toque do relógio a despertará. Seu sono é tranquilo, como o é também o das crianças no quarto contíguo. Do outro lado do bairro, um gemido de desespero escapa pela sorte do jovem ausente desde a noite anterior. Não pudera escolher as amizades do filho e, a cada novo dia, um sobressalto. É num sobressalto que, depois de uma noite curta pela canseira do dia, uma mulher se levanta e prepara um minguado café preto. Com um beijo, desperta as crianças de seus sonhos famintos; põe uma na garupa, outra na cadeirinha e, de bicicleta, corta os primeiros raios em direção à creche e a mais um dia de canseiras. Num ponto qualquer da cidade, uma mulher desperta para o dia sempre escuro, depois de uma noite inundada de lágrimas e saudades da criança, do adolescente ou, quem sabe, do jovem morto tão precocemente.
Lá, bem no centro da cidade, numa construção imponente de cinco andares, há muitas delas. Algumas, talvez, estejam experimentando a dor que precede a alegria da chegada daquele ser tão pequenino, que precisa de seu grande amor e cuidado; outras, ditosas, já o seguram em seus braços e oferecem-lhe os seios para que se farte do alimento da vida. Num outro andar desse mesmo edifício, contudo, deve estar aquela que anseia pelo retorno do filho pródigo. Um tênue fio de vida a sustenta. ''Mas por quanto tempo, meu Deus?'', sussurra para si.
Como para arrancá-lo de seus pensamentos, no bolso sob as rosas, o celular vibra. Seus dedos, trêmulos, doloridos, soltam os espinhos. Atende o celular. Um soluço lhe chega até a garganta. O fio se partiu.
O ônibus para... Olha, então, irresoluto, a construção imponente diante de si como a lhe dizer que é preciso seguir, apesar do vazio em seu peito. Entra, quando percebe ainda as rosas em suas mãos. Súbito, para no segundo andar ao ouvir o choro de bebês e, como um tributo àquela que o acalentou, oferece uma rosa a cada mãe que sustenta uma vida nos braços. Por fim, restam-lhe apenas uma rosa, as mãos doridas e o coração partido.
Antes, porém, de subir para o andar do quarto derradeiro, dirige-se à capela. Fita o olhar da Santa, certamente era o mesmo olhar doce e protetor de vinte e cinco anos atrás, quando sua mãe (ela mesma lhe contara) o levara até lá nos braços suplicantes; tão miudinho, tão fraquinho para vingar. Oferece à Santa a única rosa que lhe sobrou nas mãos feridas pelos espinhos, e junto, não um bebê, mas um coração suplicando por consolo.
Antes que suas forças o abandonem, caminha para o terceiro andar, pelas escadas, que é para dar tempo de juntar seus pedaços...
IRENE GOMES MARTINS é professora da Rede Estadual de Ensino, em Rolândia


