Algumas coisas fazem com que nós nos remetamos ao passado de repente e percebamos o quanto as coisas evoluem rapidamente com o tempo, extinguindo outras que se tornam obsoletas.
Outro dia, por exemplo, eu estava passando pela rua e entrei num desses sebos em que a gente entra por acaso. E lá estava ele, intacto: um mata-borrão. Objeto em desuso depois que se aposentaram as canetas-tinteiro.
Depois de sabe-se lá quantos anos encostado numa estante qualquer, ou mesmo passando de mão em mão por inúmeras pessoas, ou ainda, guardado por seu dono desde a sua aquisição há muito tempo atrás e tendo ele deixado em herança vários bens, figurava entre eles, este de uso pessoal que fora vendido por seus familiares porque lhes trazia muitas recordações. Eis sua trajetória imaginária.
E assim olhando aquele objeto arcaico, totalmente fora de uso, como outras coisas que com o passar do tempo são esquecidas, percebi a sua solidão intrínseca. E fiquei ali olhando aquele mata-borrão, tão inocente quanto a sua época, colocado sobre uma pilha de revistas velhas e imaginei quantas pessoas sabem o que é um mata-borrão.
Não chegava a ser um objeto pré–histórico mas com certeza muitos não saberiam dizer o que é e nem para que serviu.
Decidi então, comprá-lo, levá-lo para casa e colocá-lo na estante, onde com certeza seria importante. Meus filhos saberiam não o que é um mata-borrão, mas uma parte da história da escrita do homem.
Peguei o mata-borrão e levei-o ao caixa, onde se lia num papel pregado a fita adesiva na parede: Não vendemos fiado, não insista.
Apanhei uma revista velha para disfarçar o interesse no objeto e não inflacioná-lo e disparei displicente abrindo a carteira:
- Quanto é?
- Um real pela revista e cem reais pelo mata-borrão.
Fiquei boquiaberto, tomado de surpresa. Mas ainda perguntei:
- Por que tão caro?
- Moço, - respondeu ele - o mata-borrão não é só um objeto antigo, mas parte da celebração de nossa cultura, embora esteja sendo usado como peso de revistas.
Não levei a revista de um real, nem a cultura, nem a sua celebração que ficou inerte sobre as revistas usadas, novamente, como um mero peso de papel, talvez para sempre.

Dailton Martins é comerciante em Londrina

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