CRÔNICA - O 'Índio Véio' sai de cena
O celular do meu marido despertou exatamente às cinco e meia da madrugada de domingo, dia 03 de outubro. Foi quando ouvi ele dizer: o Paulo Ubiratã morreu, acabei de ler a mensagem no celular.
A partir daí não consegui mais dormir. Levantei uma hora depois e fui a caminho do velório. A cada passo uma lembrança, uma cena, um flashback. Parecia estar ouvindo sua voz grave dizendo no final de cada manhã: ''trabalhador, trabalhadora, pense nisso!''
Meu primeiro emprego no rádio foi na Alvorada em 1.988, quando conheci Paulo Ubiratan. Todos os dias, as 17h55 ele entrava na redação e ordenava: todo mundo pro estúdio! Era hora da Ave-Maria e ele achava que se rezássemos ali, o padre se agradaria da gente e isso forteleceria o jornalismo na emissora. Terminado o ritual, ele acendia um cigarro e resmungava. Foi bom, né!
Naquela época não tinha computador. A edição no rádio era na fita rolo. Tinha de cortar, emendar, e colocar na sequência para entrar no ar. Um dia, ele chamou a entrevista do Cheida e entrou o Célio Guergoletto. Ele saiu do sério e ao vivo descascou todo mundo. Ao sair, ele acendeu um cigarro, olhou dentro dos meus olhos e disse calmamente: ''O que tá acontecendo?''
O Paulo tinha um coração enorme. Ao mesmo tempo que esbravejava, ensinava muito. Lembro que durante a cobertura das eleições na CBN, eu chegava cedo e ele já estava lá, com a equipe distribuída por regiões, os boletins gravados e uma lista enorme com nomes e telefones de autoridades para fazer os comentários. Gostava de sair na frente, dar furos. Um profissionalismo implacável.
Meus passos foram diminuindo. As imagens do passado começaram a desaparecer da minha mente. Logo à frente vi dezenas de coroas na porta da Câmara, que revelavam o carinho dos amigos por este jornalista que partiu nos deixando o seu legado, sua história, sua experiência profissional. Ele sai de cena sem saber se deu Dilma ou Serra e sem votar no amigo Requião.
Faz o seguinte Paulo, aproveita e pede pra Deus proibir a morte de jornalista no dia de eleição, pois se assim fosse ainda teríamos você para cobrir mais essa. Mas, como o Poderoso sabe de todas as coisas, só me basta te desejar : Descansa em paz, ''Índio Véio''.
Elsa Caldeira é jornalista em Londrina





