Domingo é dia de ir à feira. Senão para comprar verduras direto do produtor, para encontrar amigos, rever pessoas, conversar, comer pastel. Ou simplesmente passear. Foi o meu programa matinal deste domingo. Não ia comprar nada. Apenas fui acompanhar meu irmão. Já passava das onze mas o movimento ainda era intenso. As pessoas conversavam animadas, andando de cá pra lá. Quem já estava com o ânimo decadente eram as verduras, principalmente as de folhas. O sol as castigava e elas demonstravam cansaço.
No meio de todo aquele povo, notei uma pequenina figura cabisbaixa e lenta no caminhar. Um boné lhe escondia as feições. Mesmo que não o estivesse usando, seria impossível fitar-lhe os olhos, pois ele só contemplava o chão. De vez em quando, parava em frente a uma barraca e ficava observando ao redor. Trazia uma sacola nas mãos.
Após percorrer toda a extensão da feira, sem encontrar o que buscávamos, fizemos o caminho de volta. Já havia esquecido do homenzinho quando o vi sentado em uma mureta, na frente de um estabelecimento comercial. Ele lia um jornal e a sacola descansava ao seu lado. O boné ainda lhe escondia a face, agora enterrada no jornal colorido.
Mas eu conhecia aquele homenzinho! Já o vira muitas vezes perambulando pela cidade. Sempre de chinelos de dedo azuis bastante rotas, bermudas largas e uma camisa já desbotada pelo excesso de uso. Seus pés provavelmente já haviam sofrido muito dentro de botinas apertadas pois seus dedos eram tortos e calejados. Certamente era o motivo pelo qual estava sempre de chinelos.
Sim, já ao vira tomado pela bebida, esquecido num canto da rodoviária. Já o vira tentando atravessar a rua, parado inerte no canteiro da avenida. Já o vira coletando latinhas em festas na praça. E, muito surpresa, já o encontrara lendo jornal na biblioteca pública! Várias vezes!
A feira eu já havia visto de perto. O retorno seria apenas uma reprise. Então, dirigi-me a ele e, sabendo ser ele meio surdo, parei a seu lado e falei alto:
- Oi!!!
Ele não reagiu por alguns segundos, absorto na leitura. Mas quando abaixou o jornal, contemplei num relance o olhar mais triste do mundo todo. Eram nesgas de céu sem absolutamente nenhuma nuvem. Límpidos e transparentes me fitaram e eu insisti:
- Está se atualizando?
- Acho que não! O jornal está vencido!!! E apontou-me a sacola com algumas latinhas vazias de refrigerantes.
Achei muita graça mas não ri, pois ele falou sério e em tom igualmente sério. Ia retornar à leitura e ignorar-me quando bruscamente abaixou o jornal e, com ar preocupado, indagou-me:
- Eu estou atrapalhando?
- Não, disse-lhe eu. Apenas vim para lhe dizer ''oi''!
Não ouvira direito por isso, mãos em concha sobre a orelha, resmungou:
- Hein?
- O senhor não está atrapalhando! Apenas vim lhe dizer ''oi''!
Tudo mudou! Num movimento decidido e feliz, estendeu-me a mão e trocamos um amistoso cumprimento. Sem largar minha mão, beijou-a num cavalheiro gesto de amizade e agradecimento. Fitou-me com seus profundos olhos azuis, o azul que só um astronauta pode ver lá do espaço!
Não tive reação além de deixar-me tomar por imensa alegria naquela hora. Fui embora sabendo que ele também ficara feliz. Naquele momento, colocando-me em seu lugar pude perceber a importância de não ser invisível.
Marilza Ribeiro Longhi é bancária em Ibiporã

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