Por sorte, a cozinha de minha casa ficava do outro lado da rua. Rua Tiradentes, nº 57. Eu ocupava o 34. Os números, desordenados toda a vida, não se podia levar muito em conta. O fato é que a cozinha de minha casa ficava do outro lado da rua - e, em se tratando da casa de minha avó, isto era sorte!
Tomávamos o café da manhã e almoçávamos lá quase todos os dias. Almoçar fora era quando almoçávamos em casa. Sempre trabalhando pela manhã e à tarde, raramente nos sobrava tempo para isto.
Vovó e vovô, carismáticos e bem conhecidos na já pequena cidade, recebiam visitas frequentes. Velhos amigos, padres e parentes distantes às vezes nos surpreendiam.
Certa feita, fui tomar o desjejum quando estava por lá um tal de Zé Pernambuco. Homenzinho baixo e com as rugas já desenhadas pelo tempo, aparentava pouco estudado, mas conhecedor das ironas da vida e bem religioso. Zé Pernambuco era filósofo e não sabia. Na sua ignorância estavam contidos conhecimentos de racionalização, anomia, dialética, existencialismo e mesmo ateísmo.
Não ficou muito desde que cheguei. Decorei algumas de suas palavras e anotei:
- A palavra de Deus é um freio pra gente não desembestar demais. Só que não é fácil segurar o freio. Quem não segue a palavra desembesta demais.

Danilo Lopes é estudante de Jornalismo e mora em Sabáudia

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

mockup