CRÔNICA - O elenco
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 27 de maio de 2008
Paz Aldunate 
Aos poucos vamos nos acostumando com a sua presença em nosso dia-a-dia e nos familiarizando com seus olhos, seu jeito de caminhar, seu perfume, o tom da sua voz, o estilo das suas roupas e, às vezes, até seu ponto de partida ou seu destino. Todo dia no mesmo horário, uns minutos a mais ou a menos e quase no mesmo local, encontramos os personagens da nossa vida. Gente desconhecida com quem cruzamos quase que despercebidamente e com a qual mantemos uma curiosa relação de olhares curiosos e silenciosa cumplicidade... A velhinha japonesa, de bengala, chinelo e lenço de seda na cabeça que passeia todo dia - quando há sol - pelo quarteirão da sua casa. As duas moças que descem da bicicleta para o trabalho e sempre dão uma paradinha embaixo das árvores para fumar um cigarro. O catador de papelão com o olho quase coberto por um enorme abcesso que, enquanto aguarda a usina de reciclagem abrir, tira um cochilo na grama da casa em frente ao lado do seu cachorro. O rapaz com o uniforme da grande loja, impecavelmente passado e a sua identificação pendurada no pescoço, aguardando no ponto, sonolento e de cabelo ainda úmido, a chegada do ônibus. O ciclista de mochila vermelha que desce a rua velozmente, seguido pelo seu pequeno e saltitante cãozinho, sempre prestes a ser atropelado por algum motorista desavisado. A mulher que sempre volta de feira com um novo vaso de flor. Os dois amigos, bem acima do peso e suando às bicas, que saem cedo para caminhar pela marginal... E assim, poderia colocar aqui centenas deles, mais ou menos importantes, que encontro todo dia nas ruas, nas lojas, praças, pontos de ônibus, nas portas das casas, atrás dos balcões, no mercado, nos bares... Pessoas sobre as quais teço histórias com as informações que a sua rápida passagem por mim me oferece, homens e mulheres com os quais tenho marcado uma espécie de encontro tácito para conferir como vai a vida; gente à qual, após um tempo, acabo cumprimentando com um breve aceno de cabeça ou um sorriso silencioso.
E tem de tudo neste palco que é o lugar onde moramos: gente alegre, gente carrancuda que até dá medo de encarar, gente distraída, triste e cabisbaixa, gente cheia de energia ou quase que se arrastando pela calçada, jovens e velhos, pobres, abastados, rápidos, lentos, cheios de motivação ou sem rumo, espalhafatosos e discretos, sorridentes ou profundamente abstraídos em suas preocupações. Gente com crianças, com cachorros, com sacolas ou carrinhos de bebê, embaixo de sombrinhas, de bicicleta, de carro, de moto, a pé, de salto, de tênis, de chinelo, descalça. Pessoas receptivas e pessoas fechadas, gordas, magras, bonitas, diferentes, muito feias ou terrivelmente atrativas... E eu me pergunto, às vezes, como seria a minha vida se estas personagens não formassem parte dela, como ficaria a minha caminhada matinal, por exemplo, se eu não encontrasse mais a velhinha de bengala e lenço de seda, ou se não cruzasse com a moça séria e de unhas vermelhas a caminho do meu trabalho. Será que a minha ida ao salão de beleza seria a mesma se eu não encontrasse lá a dona Lúcia e a sua mãe? Ou então, se na feira não estivesse mais a barraca onde compro minha alface roxo?... Acredito que normalmente não damos a devida importância a este ''elenco'' que acompanha a nossa jornada, mas se eles repentinamente desaparecessem das nossas vidas, não ficaria um espaço vazio? Pois não formam eles parte das nossas experiências, do nosso aprendizado? A sua existência não se entrelaça com a nossa de alguma forma, nem que seja por alguns segundos, quando passam por nós? E nós, não formamos também parte da sua dinâmica diária, da paisagem pela qual transitam e com a qual se comunicam?
A brevidade não é sinônimo de pobreza ou superficialidade, não quer dizer que não pode acontecer um contato - um encontro diário, mesmo que breve, pode acabar criando um tipo peculiar de intimidade - uma cumplicidade, uma partilha. A brevidade pode ter qualidade e estas personagens, que mantêm estes curtos encontros conosco podem, às vezes, fazer toda a diferença em nosso dia.
PAZ ALDUNATE é professora de teatro, dramaturga e escritora; em 2000 participou da antologia da Editora Litteris ''Grandes Escritores do Cone Sul'', com o conto ''A estrela e primeiro sábio''


