CRÔNICA - O coração da rosa
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de agosto de 2008
Paz Aldunate 
Casa velha, pobre, de muros lascados e enegrecidos pelas cascatas de incontáveis chuvas e causticantes dias de sol, grades enferrujadas, vidros quebrados, jardim mesquinho e sem muros ostentando tristemente uma horta rala e amarelada, mais mato e pedregulho do que couve ou almeirão. Latas tortas e ressecadas com alguns raquíticos pés de cebolinha e salsinha de folhas murchas e escassas... Tijolos velhos, pedaços de metal, garrafas plásticas, sacolas com lixo, tábuas, galhos secos, uma bola murcha junto de um pote de iogurte, folhas de jornal com fotos descoloridas... Não dá vontade nem de passar diante dela... E de repente, sem aviso, assim do nada, uma surpresa: ao percorrer o curto espaço ocupado pelo seu muro arruinado e solitário, uma rajada de perfume conhecido me envolve feito uma carícia.
Diminuo o passo e olho em volta, curiosa, pois não imagino de onde provém aquele aroma. Então, meus olhos esbarram num botão de rosa que se ergue, firme e reto, rente à grade carcomida. Paro bruscamente, totalmente surpresa, pois ontem ele não estava ali, e fico olhando para a roseira que desponta por trás dos tijolos. Num outro galho, uma flor aberta, de um rosa intenso, fresco, novo, com aquela inocência de quem ainda não viu o que o mundo tem de feio e triste. Pétalas de veludo, porte imperial, cheio de orgulho e coragem. A rainha das flores enfeita galhardamente o jardim pobre e maltratado, coberto de mato e lixo...
A brisa fresca traz de novo o perfume ao meu nariz e meus olhos se maravilham com aquela imagem, incrédulos. Fico parada ali por um longo tempo, a contemplar esta rainha misericordiosa e sem preconceitos, e me emociono com a magnanimidade da sua beleza, com a sua majestosa indiferença diante da feiúra que a circunda, pois penso: ''E não é assim mesmo com as pessoas? O divino não reina em todos nós, dentro de nós, e nos embeleza apesar de toda nossa imperfeição e miséria? O divino não está sempre escondido em qualquer lugar, aguardando para manifestar-se e transformar tudo?''...
Podemos ser imperfeitos a maior parte do tempo, mas isto não abala a nossa divindade interior. Ela continua ali, sempre, pois é nossa. É só ter um coração como o da rosa, magnânimo e sem preconceito - especialmente para com nós mesmos - que ela florescerá e embelezará até o mais arruinado dos jardins.
PAZ ALDUNATE é professora de teatro, dramaturga e escritora


