Não posso criticar sem que isso tenha o objetivo de ajudar, até porque também tenho a certeza que sou criticado pelos meus erros e outras demonstrações de fraquezas e inferioridades. Embora, muitas vezes, nem percebo e tomo conhecimento disso.
Quando eu era ainda garoto, acho que tinhas uns seis anos, levei para casa um filhote de cachorro que achei num terreno baldio dentro de uma caixa de papelão. Para mim, ele era lindo, eu via em seus olhos a felicidade de ter encontrado o "amigo" salvador. Nem preciso dizer da tristeza que me invadiu quando ele não foi aceito pelo meu pai, que contrariando minha mãe, me obrigou a desaparecer com o bichinho.
Com ele debaixo do braço, sai (a nossa vila naquela época era semipovoada, poucas casas, ruas sem calçamentos) e o ofereci à um carroceiro que passava. Que maldade! Além de não o aceitar, ele mandou que eu jogasse o filhote sob as rodas da carroça (aquelas antigas de madeiras circulada por um aro de ferro), o que fiz. Nem me perguntem o porquê, mas fiz e, por sorte, nada aconteceu ao infeliz cãozinho, tendo ficado abandonado por lá mesmo.
Hoje, passados tantos anos, aliás décadas, ainda me cobro da ação daquele menino. Sei que deve ter sido por submissão à ordem do adulto, pois a educação rígida daquele tempo não permitia desobediências, mas nem por isso se justifica tal atitude, que ainda hoje dói em mim, mesmo que embora não tenha acontecido a tragédia que, com certeza, iria marcar ainda mais a minha vida.
Sei que no curso de nossa existência é assim mesmo. Se nos arrependemos de "coisas" que fizemos é sinal que percebemos o erro e que crescemos, evoluímos.
Hoje, dói em mim, quando vejo alguém jogando latinhas de bebidas, bituca de cigarro, papel ou qualquer outra coisa na ruas. Eu sei que esses, também um dia, sentirão a mesma tristeza que eu, quando me lembro do que fiz ao meu cãozinho.

José Roberto Brunassi é advogado em Londrina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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