CRÔNICA - O amor não envelhece
Recordo-me da infância vivida ao lado dos irmãos e primos; das brincadeiras nas ruas esburacadas; da bicicleta nova, que as mãos pequenas mal sabiam conduzir; do tiro certeiro que causou-me a primeira dor de amor.
A casa com quintal grande era ideal para os pequenos super-heróis; o cheiro dos figos amadurecidos fazia do ambiente um lugar doce e agradável. A varanda, feita de cacos de azulejos coloridos, era propícia para que sentássemos e pudéssemos exibir as bolhas de sabão, que de tão frágeis, o vento estourava e fazia-se nada, além da "borbulhante" imaginação infantil.
Quem pode dominar o tempo? Pudera um dia ser fácil atrasá-lo, como quem move os ponteiros do relógio na parede. A vida assim passou, enquanto sonhávamos e brincávamos de ser feliz. Lembro com carinho da querida avó, Maria, mar de emoções que ria de tudo que respirava... Ela, sumidade em pessoa, boa conselheira e amiga para todas as horas, era, também, professora de Línguas, com quem discutia Filosofia e os mistérios do existir, além de Literatura e os célebres nomes que fizeram história, eternizando-se nas páginas, hoje, amareladas.
Foi com ela que descobri que podemos ser o que quisermos, e que as escolhas que fizermos na vida sempre irão obrigar-nos a deixar algo para trás. A cada ausência dela sentida, eu procurava fazer-me viva, fosse à simplicidade dos gestos recebidos, na perfeição das coisas naturais e/ou nos detalhes de outras estupendas belezas que meus olhos podiam alcançar. Ao lado dela, entendi que quando somos bons, aquecemos a alma e que aos pouquinhos, mesmo em meio às dificuldades, vamos afrouxando os "nós" que apertam o peito da gente. Com ela tornei-me adulta, aprendi a nomear meus sentimentos, a aceitar as minhas lágrimas, a ser mulher e menina e alternar minhas personas, conforme exigiam as circunstâncias.
Hoje, por ela, costumo desviar dos carros apressados, guardar nas fotos o movimento da cidade e deixar para depois as coisas e casos que podem esperar. O amor, entretanto, é uma eterna criança e não sabe esperar. É imediatista e quer tudo agora. Vovó, é muito bom tê-la conosco, e ver contigo o sol se pôr e fazer, do céu, sua obra-prima. Obrigada por ser aconchego, se fazer presença e ser acima de tudo, a poesia mais linda que eu já li.
Letícia Lesak é professora em Lunardelli
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





