CRÔNICA - O acaso em cena
Você não me viu te olhando, eu sei. A rua estava cheia de carros e gente, e você permanecia no meio de toda essa confusão urbana. Mas, eu te capturei atento aos veículos, que surgiam por todos os cantos, para, seguramente, alcançar o outro lado da calçada. Enquanto seus olhos viam tudo, e não viam nada, eu tive o privilégio de identificar nesse tormento a figura ímpar que se escondia por ali. Isso foi o suficiente para tornar especial aquela minha noite chuvosa.
Colocar crédito no cartão do ônibus banaliza qualquer rotina de um cliente fiel ao transporte coletivo. Mas, alguém atravessou a catraca do terminal com os olhos mais lindos que eu vi na última terça-feira. Esse alguém deve ter chegado em sua casa pensando que nada fez para melhorar a vida de outrem, enquanto esse outrem chegou em casa marcado pela beleza daquele pequeno detalhe. Foi um ato heroico anônimo e espontâneo.
Eu captei aquele sorriso bobo de quem encontrou o que há tanto tempo se escondia na saudade. Eu não conhecia nenhum dos protagonistas. Fui um espectador daquela cena que nenhum filme registrou, porque roteiro algum seria digno de representar o encanto que surgiu da bela espontaneidade em extinção por conta da fumaça do escapamento dos carros e da correria soberba dos transeuntes. Aquele lixo todo da calçada se esmaeceu, a buzina dos automóveis inexistiu e o cocô dos pombos era um problema à parte. Na rua, só havia a cena do acaso.
Te vi conversar tão animadamente esses dias. Gesticulava com êxito, me enfeitiçando por alguns segundos. Tomara que você não tenha me visto! Aquele moletom que eu usava sempre me coloca em desvantagem daquele em que você acredita te admirar mais do que ninguém, o que é mentira. Duvido que, algum dia, ele se animou como eu me animei ao te ver tão bem acompanhado, vestindo roupa limpa, do jeito que eu gostaria de te ver ao me escolher para segurar essas suas mãos que, ultimamente, servem apenas para apalpar regiões nada poéticas.
Eu não contava com todas essas cenas. Meus olhos fotografaram o acaso, que pintou com tons fortes os dias que nasceram com cores pastéis como de hábito. Sem máquina, sem flashes, sem edições cinematográficas; o roteiro escrito pela eventualidade não merece reconhecimento algum dos críticos de arte, apenas do meu coração que age além da sua atividade biológica.
Bruno Petri é estudante universitário e mora em Ibiporã
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





