Amanheceu! O céu estava insuportavelmente azul nessa manhã de primavera, o sol com sua majestosa soberania, dava sinal que estaria ali presente durante todo o dia. Olhei mais uma vez pela janela do quarto, vislumbrei aquele espetáculo gratuito que a natureza me proporcionava antes de cair na real: o dia não seria nada fácil.
Quem sabe a visão de um dia radiante não me ajudaria a suportar as agruras que ele me reservava?
Já não suportava mais ter de acordar e seguir o caminho traçado há mais de vinte anos. A profissão antes tão venerada, agora era motivo de angústias e depressão.
Busquei em meu íntimo forças para tomar banho, trocar de roupa e me preparar para mais um dia de trabalho.
Sai de casa, entrei no carro mecanicamente, dirigi até meu trabalho sem prestar atenção em nada, minha vida tinha se tornado uma rotina.
Precisava mudar meu eixo, já não aguentava mais viver assim.
Entrei no escritório, algumas pessoas me esperavam ansiosas, olhei para uma em especial, uma senhora idosa, com cabelos brancos e marcas profundas num rosto que o tempo não perdoou. Ela olhou-me com olhos miúdos clamando ajuda, pedi para que me acompanhasse.
Ela começou a chorar copiosamente, esperei que se acalmasse para dar sequência à conversa. Após alguns minutos ela abriu a bolsa, tirou dela uma foto de um garoto de uns quatorze anos e explicou que era seu neto, morto alguns dias antes por traficantes que não perdoaram uma dívida de drogas.
Em seguida, pediu:
- Doutor, tenho mais dois netos que se renderam ao mundo das drogas. Para manter o vício eles cometem pequenos furtos. Estão sempre nas mãos dos bandidos. Acredito em Deus, sei que ele colocou o senhor em meu caminho porque sabe que vai ajudar a salvar os meus outros dois netos. Preciso que o senhor peça ao juiz que os mande para uma clínica de recuperação.
Nesse momento tomo consciência que não posso fraquejar, preciso continuar meu caminho. Existem pessoas que dependem de mim, sou útil para muitos que não têm onde buscar auxílio. Uma onda de benevolência invade meu coração. Olho para aquela avó como se fosse um anjo que Deus colocou na minha vida para que eu acordasse do torpor que estava vivendo. Seguir em frente enxergando a vida que tenho e a profissão escolhida como um dom de Deus é minha meta.
MARIA JOSÉ PEROTTI SILVA é pedagoga em Londrina

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