CRÔNICA - Minha amiga japonesa
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de julho de 2008
Maria Helena de Moura Arias 
Tinha cinco anos quando minha família e eu chegamos a Londrina, vindos do Estado de Goiás. Fiquei muito curiosa a respeito da cidade que nos esperava e no ônibus já nem dormia direito. A rodoviária causou-me inesquecível espanto já que para mim eram montanhas juntinhas iguaizinhas aquelas que vi pelo caminho.
Mas de todas as coisas importantes da infância aqui em Londrina, trago entre minhas lembranças a amizade com uma menina japonesa. Seu nome, Celina. Era nossa vizinha e seu pai havia nos alugado a casa. Ocupávamos o quintal entre brincadeiras e correrias. Dividíamos as frutas. Em nosso quintal havia manga e abacate. No dela, poncã e caqui. Nunca tinha provado estas frutas que achei deliciosas.
A Celina era uma menina muito alegre e eu que, às vezes, era meio calada e pensativa, acabava me envolvendo e aceitando seu convite para observar a batian cuidar da horta ou do jardim, para rir baixinho quando ela falava sozinha. Ou ainda para comer bolinhos de arroz com um gosto diferente daqueles que minha mãe fazia.
Mas o que gostava mesmo eram das aulas de japonês. Minha amiga estudava em uma escola onde aprendia sobre a cultura de seus pais e avós e sempre me contava como eram os professores, o que ensinavam, sobre seus colegas e também sobre as festas e os costumes. Comecei assim a aprender este idioma que, no início, considerei dificílimo por não ter muita paciência e habilidade, pois a Celina queria que, além de falar, eu escrevesse. Achei lindos os kanji (ideogramas). As aulas aconteciam em meio às brincadeiras, ou depois de assistirmos o Nacional Kid pela televisão.
Naquela fase de minha vida ela era uma pessoa muito próxima, até que nos mudamos para um bairro distante. Aos poucos, fomos nos desprendendo. Seu pai a levou uma vez em minha casa nova. Mas os afazeres, os estudos e a incessante correria do tempo nos fizeram crescer e seguir outros caminhos.
Não sei mais como se escreve meu nome e outras palavras em japonês, por mais que tente me lembrar. Os ideogramas estão embaralhados em minha cabeça, mas o momento em que eles me foram apresentados, estão muito firmes e seguem constantes. Acho que a Celina daria uma boa professora.
Neste ano em que se festejam os 100 anos da imigração japonesa foi desta história que me lembrei para homenagear a minha amiga e sua família tão serena.
MARIA HELENA DE MOURA ARIAS é Jornalista, Mestre em Letras e funcionária da Editora da UEL


