CRÔNICA - Meteórica
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de julho de 2008
Mateus P. de Oliveira 
Meteórica. A única palavra que me vem à cabeça quando penso em como tudo aconteceu. A única palavra capaz de descrevê-la. Meteórica. Rápida e devastadora. É engraçado como coisas tão significativas podem acontecer em tão curto espaço de tempo. De repente aparece a solução para as maiores questões do (meu) universo. Quem sou? Pergunta difícil, talvez a mais difícil delas mas, a princípio, posso assegurar que não sou o mesmo homem de dias atrás. Definitivamente não.
Onde estivemos antes daquele encontro? Foi a primeira coisa que me ocorreu quando ficamos à sós. Na verdade, a dúvida era de tal modo atroz que não hesitei em perguntar. Ela disse não saber e, sinceramente, acreditar nessa resposta me tortura bem menos. Sei muito bem onde eu estava. E como sei. Sim senhor, sempre no lugar errado. Por que dessa vez seria diferente? Destino? Há quem diga que cada um tem plenos poderes sobre seu destino. Há quem escreva canções a respeito. (Cá entre nós, eu mesmo já caí nessa armadilha. E enquanto digito estas linhas posso ouvir o crepitar das chamas queimando as tais canções). Voltando ao assunto: Malditos sejam! Se me fosse permitido vaticinar o futuro, certamente estaria desde o primeiro dia nas palestras e plenárias sem nenhum arrependimento por ter deixado de ir à praia. Paciência.
O que me levou àquela cidade? Não, não pode ter sido mera necessidade de me ausentar de Londrina por uns dias só para ver como a coisas andam sem mim. Claro que eu precisava de uns dias afastado da terra natal. E que atire a primeira pedra quem disser que não precisa. Mas hoje percebo que havia algo mais naquela empreitada, algo que a vida precisava urgentemente me ensinar. Destino. Acredito em destino, mas acredito como sendo algo fora do alcance das mãos.
Como a conheci? Muito provável que tudo teve início em uma troca de olhares. Clichê? Não ligo. E não criarei situações absurdas para fugir de clichês e pieguices. Aliás, ao pensar naquela noite de sábado notei que não houve estranhamento nos olhares. Nada é por acaso. Será que já nos conhecíamos? Sei lá, de algum veda ou de outras vidas? Algum veda, outra vida. Logo eu que vivo batendo no peito bradando o agnosticismo me flagro utilizando elementos do hinduísmo numa tentativa frustrada de explicar o inexplicável. Que posso fazer se ela gosta de hinduísmo? Tudo por causa dela. Meu Deus! Ops, até de Deus me lembrei. Realmente nada é como antes.
Enfim a conheci, após dois dias andando na escuridão cheguei onde sempre deveria estar desde o começo: do evento, do mundo, tanto faz. Bebi seu vinho. Seu vinho, meu vinho, nosso Soma. Iluminação. Autoconhecimento. Confusão entre alegria pueril e desejo adulto, macho. O abraço: acolhe, envolve, enleva. O beijo: urgente, transcende, eleva. Quem de nós levitou primeiro? Não sei. Nem ela. Não importa. Fugimos do mundo e de todos que tentaram nos separar.
Coragem. Essa foi a lição que a vida me deu usando o mais belo artifício: ela. Nosso encontro me remete ao Gita: eu, Arjuna, grande guerreiro sem coragem para lutar; ela, Krishna, me encoraja e me abre os olhos. Jamais ousaria escrever essas linhas antes dessa experiência maravilhosa. Gracias a la vida!
Abraço de despedida. Se o destino for amigo, aquela foi só a primeira das despedidas embora ela sempre estará comigo, não importando a distância. Lembranças. Sempre me lembrarei daquela noite, da lição, da passagem dela pela minha vida. Rápida e devastadora. Meteórica.
MATEUS P. DE OLIVEIRA é músico


