Anoiteceu...
Novamente sob a ampla marquise da loja comercial de pneus, sua preferida pela proteção oferecida nos dias chuvosos, senta-se e retira de dentro de um saco, um cobertor 'corta febre'.
Com ele e a garrafa de cachaça que está pela metade é que irá se aquecer.
Esse é o pior momento do dia, o silêncio e a solidão da noite, acompanhados do medo de uma possível agressão e hostilidade humana, que vêm de uma sociedade que já se deu o direito de julgar e condenar moradores de rua como ele.
Em sua companhia, apenas a presença de Deus e seu cachorro vira-lata que está de volta, após uma jornada diária fuçando as latas de lixo para saciar sua fome.
Seu dia não foi diferente do amigo leal, também lutou intensamente abordando os veículos que paravam no semáforo, mendigando em prol de sua alimentação. Obviamente que o objetivo principal era garantir primeiramente a garrafa de cachaça.
É nela que encontra diariamente forças para amenizar suas dores, não as do corpo, mas sim as do abandono e do desprezo.
A imagem deprimente de um homem sem vaidade, com barba e cabelos por cortar, exalando forte cheiro de álcool, suor e urina já impregnados nas roupas sujas, favorecem o sentimento de piedade e facilitam a conquista das moedinhas.
Ninguém imagina que por trás desse homem um dia existiu uma criança, que brincou, jogou futebol, foi à escola, teve amigos e sonhou.
Sonhou quando criança, trabalhou e constituiu família quando jovem e perdeu tudo quando adulto. Infelicidades, más companhias e falta de estrutura emocional mataram seus sonhos, e o levaram para bebida, o vício e as ruas.
Abandonado e desprezado pela família e ainda condenado pela sociedade, tornou-se um mendicante.
Apenas mais um no meio de tantos outros.
Olha para a garrafa e percebe que só resta o último gole. Apesar de estar sentado, seu corpo balança de um lado para o outro demonstrando total embriagues.
Desabafa com seu vira-lata, faz xingamentos pelo último gole da garrafa, pois sabe que amanhã terá que batalhar novamente por outra.
Deita-se e fica se perguntando quando será que uma mão se estenderá para tirá-lo dessa situação.
Sabe perfeitamente que ela não virá dos homens e cai num sono profundo.
Amanheceu...
O sol está brilhando e o barulho dos carros, motos e ônibus acelerando no semáforo acordaram o vira-lata.
Seu amigo já se foi..
Ele, no entanto, melhor amigo do homem, não sai do lado daquele corpo sem vida.
Finalmente, a mão tão esperada foi estendida.
Alcir Antonio Chiari, engenheiro agrônomo em Londrina

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