CRÔNICA - Maria Adélia
Dona Maria Adélia, descendente de portugueses, não carregava na vida as peculiaridades dos antepassados. Três ou quatro gerações já se haviam ido e Maria Adélia se tornara brasileira. Lutava contra uma enfermidade que não sabia ao certo explicar qual era, mas fazia dos bancos de hospital seu local de sufocar solidão.
Maria Adélia morava sozinha, viúva, não tinha filhos, apenas se orgulhava de ter dado a luz ao maior número de crianças naquele lugarejo sem ter ficado prenha uma vez sequer. Falava isso sorrindo, e perguntava aos doutores que a tratavam se eles saberiam dizer como isso era possível. Maria Adélia, cheirando a cachaça, em gargalhadas dizia em alto em bom tom que tinha sido ''parteira'', nos tempos em que doutores não se ocupavam de tal ofício. Era analfabeta, mas a leitura formal não lhe fazia falta. Da tradição familiar carregava um dom que ela jurava ser divino, fazia ''benzimento'', curava cobreiro, mal olhado, quebranto e qualquer tipo de mandinga que sua vivência de mundo lhe pudera fazer conhecer.
Nunca comprou frutas ou verduras, colhia laranjas do pé para chupar depois do almoço. Da venda ela não precisava de quase nada, somente o sal, a banha e a cachaça. De tanto beber dizem-se hoje que morreu de cirrose. Na época não se sabia explicar ao certo, diziam que de tanto beber ela havia morrido de felicidade.
Walmor Chagas Fermino de Oliveira é professor em Conselheiro Mairinck





