De vez em quando, nasce a manhã inexistente.
Abro os olhos, a luz do dia chega sem escândalo, as cortinas estão imóveis - mas é a manhã inexistente.
Tem dias em que eu acordo nela. Dentro dela. Eu e ela. Ela.
Somadas, quanto tempo dariam todas as manhãs inexistentes desta vida? Manhãs quando tudo acabou, manhãs depois da quinta-sem-lei, manhãs depois de churrascos, manhãs depois de foras, manhãs seguintes ao trabalho inútil, manhãs pós, manhãs pré, manhãs durante, manhãs anteriores a tudo, manhãs de dúvida, manhãs de calor assassino, manhãs-Neosaldina, manhãs-Gatorade, manhãs atéias, manhãs traidoras, manhãs mentirosas, malditas sejam para todos os tempos.
Eu fico monstruoso na manhã inexistente. Levanto a voz, persigo as paredes, ouço rádio fora de sintonia, digo frases desconexas ao telefone. Na manhã inexistente, sou indigente e apátrida. Poderia deixar minha namorada, meu amigo Preto, meu amigo Zé, meu amigo Pafu, meu bar, meus empregos, minhas fontes de renda, meu concerto de Bach, minha novela de Tolstói, minha fotografia da casa de Henry Miller em Paris. Poderia abandonar minha família e minha casa; meu almoço e meu sonho; minha cerveja e minha água. Até o cachorro que eu não tenho - poderia abandonar. E o cão (grande e marrom) me olharia triste, com cara de pidoncho - porque, afinal de contas, pede-se muito na manhã inexistente.
Deus existe? Existe. E a manhã inexistente? Inexiste.
Eu morreria de fome e de sede se a vida fosse a manhã inexistente. Perderia a profissão, pois não saberia mais ler nem escrever. E o que me tornaria? Ventanista? Motorneiro de bonde? Frentista de posto automático? Vocalista de banda instrumental? Provador do vinho que acabou? Estudante já formado? Professor de ninguém? Revisor de um texto em ideogramas desconhecidos? Não adianta, todas essas ocupações já afundaram no abismo da manhã inexistente.
Sou um perdulário de manhãs. Gastei tantas que fui à bancarrota. Meu limite no banco estourou. Todas as manhãs inexistentes começam no vermelho; depois tudo é branco, branco, branco. Não sei de onde vem tanta luminosidade. A manhã inexistente é o primeiro círculo do Inferno, o mais próximo da saída.
Tenho idéias ridículas na manhã inexistente. Fazer uma reunião das ex-namoradas. Pintar o chão de teto e o teto de chão. Virar mendigo. Dormir na máquina de lavar. Abrir um estabelecimento comercial chamado Bar Boleta. Fingir-me de surdo e cego. Virar um ser humano igual ao vizinho do andar de cima. Dançar bolero comigo mesmo. Tomar água direto na torneira. Iniciar uma peregrinação ao... ao... ao gramado da Universidade onde a garota perdeu o brinco. Viajar para Mongaguá e Itanhaém - e depois, na praia, ficar repetindo esses nomes difíceis: Mon-ga-guá! I-ta-nha-ém! Mon-ga-guá! I-ta-nha-ém! Mon-ga-guá! I-ta-nha-ém! Mon-ga-guá! I-ta-nha-ém! Mon-ga-guá! I-ta-nha-ém!
Nas manhãs inexistentes, farei uma canção do medo. Letra e música. Olharei para tudo, e tudo será medo. Refrão das coisas. Colher: medo. Copo: medo. Lençol: medo. Banheiro: medo. Caneta: medo. Computador: medo. Jornal: medo. Carteirinha da biblioteca: medo. Relógio: medo. Janela: medo. Medo: medo.
A manhã inexistente muitas vezes é tarde. E quando ela chega à noite - aí, então... Meu Deus, quando ela chega à noite! Jesus, Maria e José, quando ela chega à noite! Paulo, João, Lucas, Mateus, Marcos, quando ela chega à noite! Jó! Elias! Jonas! Rute! Moisés! Jacó! David! Pai, Filho e Espírito Santo, quando ela chega à noite! Deus me proteja para que as manhãs inexistentes não cheguem à noite. Deus me proteja e me perdoe.
Somadas, minhas manhãs inexistentes dariam uns cinco anos. Sim, nasceu uma criança doente nas manhãs inexistentes. Hoje é o aniversário dela. Nasceu e não tem nome, não tem vida, não tem nada. Só tem medo. Uma criança de cinco anos vai cantar a canção do medo nesta manhã inexistente.

(Crônica classificada em primeiro lugar no XII Concurso Clarice Lispector do Satélite Esporte Clube).

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