Debruçou-se sobre o comportamento dos seres vivos, a origem das espécies e dos indivíduos. Seu filho brincava lá fora, naquele pé de manga, com seu cãozinho de estimação no quintal da casa. Em seu laboratório, estudava a vida em sua dinâmica atômica.
A amplitude dos fenômenos macroscópicos já se tornara invisível aos seus olhos voltados ao micro. Não que seu trabalho fosse menor. Nem menos. Longe disso. Trabalhava com afinco e dedicação em estudos sobre os seres vivos e seus comportamentos. A maneira como eles interagem uns com os outros e com o ambiente, entende?
Seu filho não estava mais no quintal. Agora só brincava do portão da casa para dentro. Ouvia rádio ou assistia à tevê. Passou pela bioquímica. Ao nível da célula pela biologia celular e à escala multicelular pela fisiologia, pela anatomia e pela histologia. Debruçou-se e esqueceu-se de levantar seu olhar ao mais longe horizonte.
Seu filho estava em casa jogando videogame e comendo pacotes de bolacha recheada com uma massa artificial que diziam ser de sabor semelhante ao de morango. Já não se lembrava qual fora a última vez que havia saboreado um moranguinho fresco, natural.
Mergulhou em livros, em congressos e alguns seminários. Com genética populacional trabalhou a população, enquanto na sistemática trabalhou com linhagens de muitas espécies. Que espécie de trabalho era aquele? Não viu o filho crescer.
Na etologia, estudou comportamento dos indivíduos. Comportamento distante, aparente. Naquele mundo bastava se parecer com algo ou alguém. Os sentimentos ficaram de lado. Uma essência que ali já não estava mais. Na genética, estudou como funciona a hereditariedade entre progenitores e sua decendência. Vivia em seu mundo aparente, sem graça. O filho cresceu e não mais olhava para os pais como mandava o mandamento divino.
Honrarás pai e mãe? ''Sim, honrarei meu programa de tevê preferido e meu celular.'' Achou absurdo. Não era absurdo ouvir aquilo. Afinal, aqueles eram seus pais de criação, oras. Seu filho estava em casa, comendo pacotes de bolacha e conversando com os amigos. Amigos virtuais, pela internet.
Um dia levantou o olhar sobre o nível de seu microscópio e viu um mundo diferente. Um mundo igual, mesmo assim, diferente. Um mundo de trás para frente. Foi quando aquela jovem menina entrou em seu laboratório e perguntou qual era seu objetivo. Desvia seu olhar das lentes, células e microorganismos e a cita: meta, matemática! A garota deixou escorrer uma lágrima. O mundo estava de trás para frente. Corria igual, ainda assim, diferente. Não se deixou abater. Abriu um sorriso. Ali, naquele laboratório, diz-se um dia estudar a vida.
Para aquela garotinha, o avesso do avesso é diferente. Largou o teclado e seus amigos virtuais. Deixou cair no chão as migalhas e o resto todo do pacote de bolacha aberto. Tevê e rádio ficaram ligados. Saiu pelo portão e encontrou-se com seus animais de estimação. Subiu na mangueira e se deliciou sob a sombra natural. Rara. Em seu microscópio, ficou o outro. Sua profissão? Biólogo. No pé de manga, a menina se divertiu, viveu. Era, também, bióloga. Estudava a vida.

GIOVANNI NOBILE DIAS é jornalista

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