CRÔNICA - Lembranças de outono
Este clima de outono e inverno me faz lembrar com muita nostalgia de um passado não tão distante. Lembro-me do cheiro da minha infância. O cheiro do colo da mãe que tudo protegia; do chocolate quente da avó que até hoje nenhuma máquina ultramoderna consegue reproduzir; da palavra forte do pai que resolvia qualquer briga entre irmãos.
Lembro da preguiça de levantar para ir à escola; das falsas dores de cabeça ditas à mãe com a intenção de cabular a aula naquele dia e ficar assistindo embaixo das cobertas os desenhos animados na TV. E que bom quando dava certo.
Lembro do cheiro do feijão quente na hora do almoço; de poder almoçar no sofá - afinal a mesa era de madeira e estava sempre bem fria.
Que falta faz o sono da tarde que não obedecia a horários ou tempos de duração. Obedecia apenas a vontade do menino preguiçoso. E quando acordava nenhuma preocupação a não ser ver se o dever estava pronto, pois certamente no outro dia a desculpa da dor de cabeça não iria funcionar.
Ao entardecer sinto a falta das brincadeiras de rua, onde sempre fui mais espectador. Tinha lugar cativo como o famoso ''café com leite''. Saudade da tentativa de não encarar o banho antes da janta, porque água ainda que morna naquele frio não era nada atraente.
Da sopa de feijão com macarrão do jantar; da hora religiosa do jornal do pai, onde nunca faltou um belo café preto para acompanhar. Falta da história que era contada pelo pai ou pelas irmãs; do adormecer sem preocupações. Dos sonhos que eram cheios de brinquedos e festas; do acordar o pai no meio da noite pra ir ao banheiro - afinal o menino ainda tinha medo de escuro. Da aula da professora Edilma. Das brincadeiras dos amigos de escola que o tempo e as escolhas afastaram fisicamente, mas que a mente mantém bem viva. Da volta pra casa na hora do almoço.
Hoje, o chegar do outono me faz reviver as lembranças desses momentos e ter a certeza de que eles foram muito bem vividos. Pena é a impossibilidade de reviver materialmente como um menino sem compromissos a vida que eu tive. Sorte que a memória pode ser acessada a qualquer momento.
Thiago Ranniere





