Ele tinha lido que para retirar os cinco mil reais ganhos num sorteio relâmpago, precisaria depositar mil para uma conta bancária escrita na mensagem recebida em seu celular. O pobre homem mal sabia que, além dele, eu também li o seu torpedo. Ou seja, seria mais verossímil eu começar essa crônica com o pronome nós ao invés de ele, não é mesmo? Bom, eu que já sabia que tudo aquilo se tratava de um golpe, me senti golpeado ao me deparar com a seguinte situação: informar o homem para não seguir adiante com a mensagem por se tratar de um roubo, ou ficar quieto, pois eu li (sem querer, eu juro) um SMS alheio dentro de um ônibus.
Se para mim o pronome nós era tão poético em meus textos, depois desse dia seu significado sofreu uma metamorfose kafkiana. Além disso, me senti tão mal em invadir a privacidade de meu colega do ônibus, que passei a condenar mais ainda as espionagens do Tio Sam. Mas, pensando bem, essa minha "leitura enxerida" era benéfica. Pense só, se eu não informar o homem que aquilo tudo era uma armação digna de uma espionagem norte americana, o rapaz perderá o dinheiro e rezará para que o 13º consiga suprir esse roubo. Porém, a maldita ética debatida pelos filósofos e a maldita educação de minha mamãe e do povo que prega para "não se intrometer onde não é chamado" retarda mais ainda minha ação.
Comecei a ensaiar o meu suposto ato heroico. Precisaria ser muito educado e cuidadoso, afinal meu porte físico não se adequa ao padrão de beleza dos marombeiros. Iniciar o diálogo com um "bom dia" prolongaria demais a ponto do homem decidir depositar os mil reais, mas a educação é um bem precioso e cai bem em qualquer situação. Então, decidi bancar a Glória Kalil, porque nunca ouvi alguém chamá-la de deselegante, porém meu jeans surrado e meu tênis sujo não eram fieis ao look da estilista. Acho melhor eu ser direto, as coisas são... Meu Deus, a campainha do ônibus tocou, o homem do celular desceu, e eu não tive tempo de falar com ele. Droga, pensei demais!

Bruno Nascimento é estudante em Ibiporã

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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