CRÔNICA - Katia Michelle Instinto animal
Era um seriado dos anos 80. Manimal. No ponto alto da minha adolescência não perdia um dos episódios que mostrava um cara loiro e bonitão se transformando em animais. As transformações eram dramáticas, sob efeito de uma trilha sonora idem. O mais impressionante é que a mutação não era inspirada no Hulk, por exemplo. Jonathan Chase, o personagem, não precisava ficar nervoso para se transformar, o que nunca acontecia à sua revelia. Ele utilizava voluntariamente esse dom, herdado do pai, para combater o crime. Acontecia a olhos (do telespectador) vistos. Sempre penso nisso quando digo para minha filha, de quase três anos, que vou virar uma fera se ela não se comportar.
Nunca quis ser a mulher-maravilha ou Angelina Jolie. Queria mesmo era ser Jonathan Chase. Ele sabia os segredos que separavam o animal do homem e vice-versa. Os efeitos especiais do seriado, confesso, eram terríveis. Fariam rir a Steven Spilberg, o gênio da época, mas para quem era adolescente num tempo pré-Matrix, só podiam mesmo ser classificados como geniais. A respiração forte e os closes marcavam o início da mutação. As seqüências pulavam imediatamente para as mãos, de onde cresciam os pêlos, para as garras aparecendo ou para o nariz se transformando em bico de uma águia ou falcão, não lembro bem.
Apesar de ser ilimitada sua capacidade de transformação, ele quase sempre virava um pássaro, uma pantera-negra ou uma serpente. Limitados deveria ser os recursos e a tecnologia da série. Mas, quando lembro dela, a imaginação corre solta, não tem limites. O autor deve ter se inspirado nas inúmeras relações do homem e do animal, mas quis ser delicado.
Essa relação intrínseca é antiga. A cultura do xamanismo, por exemplo, utiliza os animais para explicar os problemas da humanidade e indicar respostas. A águia, esperta e de olhos atentos, é o símbolo solar. Diz-se que o homem deve recorrer à ela quando quer ter sua consciência despertada. Pois esse pássaro pode dar uma visão ampla das situações e ensina a ter foco. Assim, como ela só vê a presa, seu alvo quase sempre certeiro, no meio da imensidão do terreno, mostra aos humanos animais racionais que estes devem focar seus desejos. Esquecer o entorno. Mergulhar sem medo.
Já a serpente, capaz de causar medo a muita gente, significa para os xamãs exatamente o contrário da possível repulsa que esse ser rastejante pode causar. Essa animal é símbolo da regeneração. Troca de pele significando o renascimento. Ainda que para os católicos ela seja símbolo do pecado, já que teria sido a serpente a oferecer o fruto proibido a Eva. O ofídio até pode ter trazido medo e doença, mas também deu um outro dom ao homem: o da consciência e da escolha.
Escolher no que se transformar deveria ser a parte mais difícil para Jonathan Chase. Imagine ter poderes à sua disposição e ter que decidir quais e como usá-los. A astúcia da águia ou o poder da serpente? Ter uma visão espacial ou rasteira? Quando digo para minha filha que vou virar uma fera, quase sempre penso num leão. Com rabo de crocodilo. E veja, não imagino o animal como rei da selva ou com qualquer outro significado de elevação. Penso apenas em querer dar um rugido imenso que faça aquela pequena criaturinha entender precocemente o mundo dos adultos.
Que falha a minha. Se eu fosse Jonathan Chase, certamente escolheria diferente. Entraria num galpão e logo a mutação seria voltada para um animal calmo e astuto. Sem rispidez ou ironia, que me forçasse a focar minha atenção no momento, deixando na outra pele todos os problemas e encargos da maioridade. No lugar de querer forçar o crescimento, reduziria eu ao tamanho de um filhote para ver o mundo rasteiro. Ou apenas de um outro ângulo. Quem sabe a mutação, mesmo que por tempo determinado, me ajudasse a ganhar sabedoria para lidar com as situações que só os humanos precisam. Os animais podem confiar no instinto.





