Curitiba - Vou fracionar minhas promessas de ano novo. Começar a fazer exercícios em janeiro e talvez continuar no mês seguinte. Em março vou organizar os CDs e prometo colocá-los cada um em sua devida caixa. Nunca mais discos soltos pela casa. Só em abril vou pesquisar um mestrado. Pena que o ano letivo já vai ter começado. Em junho vou pensar nas férias e juro gozá-las sem culpa, em julho. Agosto começo nova programação. Talvez comemore um novo ano nessa data. Só para mim. Pois ainda não entendo essa urgência que antecede o dia 31 de dezembro. Como se tudo fosse ser decidido em 24 horas. Nova vida no dia 1º de janeiro.
  Por via das dúvidas, para não sobrecarregar a data, vou dividir as promessas, que sem elas é impossível pensar em mudança. Já disseram que o planeta Júpiter regerá 2007. A astrologia defende que Júpiter, o maior planeta do sistema solar, é também o planeta da justiça, da riqueza, da abundância. Vou dividir minhas promessas ao longo do ano, mas vou tentar que Júpiter não cobre juros e não enriqueça com minhas dívidas. Há que pensar positivo. Ainda bem que não seremos regidos por Plutão, que foi rebaixado, virou um planeta menor. Não quero ser rebaixada.
  Temos que pensar grande em 2007. Ter certeza que a esperança prosseguirá após o primeiro dia e tentar não exceder de objetivos uma única data. Dei uma olhada no google. As previsões são boas. Será um ano bom para romper limites e desenvolver o impulso de expansão, já que Júpiter, o regente do ano, tem caráter expansivo. Mas não é bom expandir demais, senão engorda. E engordar é o contrário das promessas de ano novo. É bom tomar cuidado. Dizem que Júpiter tem um arcanjo. De nome estranho, quase impronunciável: Tzadkiel. Ele protege os nascidos sob o signo de peixes e sagitário. Sou leonina.
  Não tenho descendência chinesa, mas procurei saber se as crenças dos chineses se encaixam melhor no meu perfil. Posso deixar meu signo ocidental e começar a pensar sob influência oriental. Tenho olhos um pouco puxados e os aperto mais para tentar enxergar coisas que costumo não ver. Como a boa vontade. Pensando bem, sou quase chinesa. Os chineses não comemoram o novo ano na passagem de dezembro para janeiro. Esperam a primeira lua cheia do ano.
  Assim como eu defendo, a China tem seu próprio calendário. Enquanto os ocidentais comemoram a chegada de 2007, os chineses exaltam a sua passagem para o ano 4705. Somente no próximo dia 18 de fevereiro. Até lá, nada muda para eles. Só em fevereiro, os chineses vão se despedir do cachorro, o signo que regeu 2006 e se preparar para entrar no ano do porco. Ou do javali. No horóscopo chinês sou gato. Ou coelho. São a mesma coisa para o horóscopo chinês.
  Em fevereiro, quando os chineses estiverem preparando seus festejos de mudança de ano, vou pensar na segunda promessa a cumprir. Porque só vou cumprir uma por mês dessa vez, prometo. Para que isso aconteça vou fazer algumas simpatias. Não acredito nelas, mas tenho medo de não tentar. Vou comer uvas e guardar as sementes e cuidar para não perdê-las no dia seguinte. Vou pular sete ondas em pensamento, porque não vou para a praia este ano. Vou comer romãs sem pensar no preço que essa delicadas frutas estão sendo comercializadas. Aliás, vou tentar não pensar em preços e outras coisas desagradáveis. Em setembro, claro, não antes disso.
  Descentralizando as promessas, espero que a expectativa seja menor. Caso não consiga cumprir uma delas, vou me decepcionando a prestação. E não apenas no final do ano, como agora. Ano passado prometi organizar os discos. Acho que o que o CD do Mulatu Astatke que ouvi na ceia de Natal passado ainda está na caixa dos Strokes. Ou ao contrário. Nunca vou saber. Até janeiro, quando passarei a organizar os discos cada um em sua caixa.
  Os quilos que prometi perder em dezembro do ano passado continuam comigo e não, ainda não me matriculei na natação. Deixo isso para setembro. Já tenho programação até lá? Acho que me perdi nas datas, então só vou comemorar o novo ano em outubro porque acho que estarei livre nesse mês. Vou guardar os fogos, a esperança e a expectativa de que tudo melhore. Que eu me organize e alimente o espírito. Só em outubro, o ano será novo.

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