"Você vai sair agora daí? Como você vai vender suas coisas?" indagou um senhor que procurava abrigo debaixo da marquise do Terminal Central de Londrina. A sua preocupação se voltava a um comerciante que punha suas mercadorias à beira da rua para sustentar a esposa que ama, o filho que pediu uma bola melhor ou a mãe doente que depende da renda do comércio ambulante para manter a diabetes controlada. O vendedor era um homem cansado tentando recuperar tudo aquilo que renderia em um conforto parco e suado. Mas a chuva era forte e com ela o vento congelava cada vez mais o clima tenso do trabalhador que a todo custo tentava salvar o pouco cigarro que dispunha.
A chuva que tira a sede do solo e enriquece o lençol freático que corre bem debaixo dos pés quentes do cidadão é a mesma que interrompe o fluxo de carros na 10 de Dezembro e assoreia o Lago Igapó. Todo o temporal desejado pelos paulistanos é mal vindo pelos feirantes que além de se desviarem dos obstáculos de manter o comércio autônomo nos trilhos e a par com a burocracia, rogam pelo dia de céu aberto para o bom desempenho de seu negócio. São incongruências rotineiras e atemporais. Os humanos são incongruentes.
A poesia da chuva está nos olhos de quem nos dias mais quentes usa um Carrera do valor de todos os panos de pratos e toucas que a tia da esquina tem para oferecer. A garoa só embeleza quem lê um romance cujo preço equivale a todos os alhos que o senhor de pés rachados tenta negociar. Rezar por um tempo chuviscado para se aquecer debaixo dos cobertores nada se assemelha à oração da moça dos doces que clama por mais um bom dia de trabalho.
Simplificar as taxas para manter o comércio ambulante ainda não está ao alcance dos vendedores. Abrir um pequeno empreendimento requer capital de giro fora da realidade dos comerciantes, e o apoio de algumas entidades especializadas em empreendedorismo nada serve para quem de mãos vazias tenta preencher a despensa de casa com a força braçal/mental e algumas bugigangas compradas com a sorte e a camaradagem.
Todo o cigarro do vendedor citado no início do texto foi acomodado no canto seco onde entram os passageiros dos ônibus. A camiseta ensopada só não o fará mal se sua imunidade fortalecida barrar qualquer vento gélido no peito. O celular sem crédito deixará em silêncio a informação que ele daria à esposa de que tudo estava bem. Enquanto isso a água da chuva corria forte na boca de lobo entupida.

Bruno Petri é estudante universitário e mora em Ibiporã

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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