CRÔNICA - Iluminar o caminho
Por que sempre tentamos mudar aqueles que amamos, mesmo jurando que os aceitamos do jeito que são? Por que não os amamos justamente por serem assim, por terem aquelas imperfeições, aquelas características, aqueles vazios e desvios? Por que não conseguimos conviver serenamente com as nossas diferenças? Para que queremos imagens e comportamentos iguais aos nossos? Onde está a graça nisso?... É justamente na diversidade que está todo o encanto da vida! Ela nos dá um pouco de trabalho, é verdade, mas quanto aprendemos e crescemos ao vivenciá-la!... Ou será que somos tão preguiçosos e fechados, tão preconceituosos, que preferimos não encarar este trabalho?...
Não sei por que temos a insana mania de querer interferir tão drasticamente na vida dos outros, da mesma forma em que não aceitamos, com idêntica energia, a menor sugestão ou crítica deles porque, claro, nós é que estamos certos. São os outros que têm que mudar. Obviamente, um espelho de nós mesmos facilita qualquer relacionamento, evita riscos e desavenças, possibilita a manipulação e o domínio, então precisamos conhecer e controlar o outro tão bem como a nós mesmos. Evitar conflitos parece ser a regra vigente.
Mas precisamos entender e aceitar que qualquer mudança no outro não virá por imposição nossa, mas através da compreensão, do equilíbrio, de uma necessidade interior pessoal, de uma visão mais ampla e madura, coisa que às vezes leva um tempo que nós nem sempre estamos dispostos a esperar. Então, por que não confiar nas leis e os ciclos da vida? Por que não acreditar na sensibilidade do outro, na sua percepção, na sua generosidade e na docilidade do seu coração?... Acho que o fato de termos a sorte de saber quem somos e o que desejamos faz com que, às vezes, sejamos duros demais com aqueles que ainda não tiveram a chance de abrir as portas certas para encontrar seus sonhos e a força para ir atrás deles. Falta-nos ainda a paciência e a compaixão necessárias para acolhê-los e esperar a que percorram seus respectivos caminhos rumo à sabedoria e ao equilíbrio, à realização, e assim se aproximem do patamar no qual nós nos encontramos.
Não pretendo que ninguém seja igual a mim, pois assim como eu tenho coisas que os outros precisam, sendo do jeito que sou, os outros também, sendo da maneira que são, possuem coisas que eu preciso. É nisto que consiste a diversidade, é assim que funciona. Não se aprende somente das qualidades do outro ou de si mesmo, mas também dos defeitos, erros e fracassos. Nada está em nós ou nos acontece por um simples capricho do destino, por crueldade ou punição, mas como um desafio que precisa ser vencido para que possamos galgar mais um degrau em nosso caminho rumo à sabedoria.
Como bem diz (ou canta) o mestre Milton Nascimento: ''Toda vida existe para iluminar o caminho de outras vidas que a gente encontrar''
Paz Aldunate é professora, dramaturga e escritora em Ibiporã





