Sempre me fascinou a destreza e velocidade com que as donas de casa ou as empregadas conseguem escolher o feijão ou o arroz, separando com firmeza e sem erros os grãos escuros, murchos, quebrados ou manchados dos inteiros e saudáveis em cima de uma mesa limpa. Os olhos nem sempre estão fixos na tarefa, pois parece que elas conseguem sentir na ponta dos dedos o grão defeituoso, então podem conversar, olhar as crianças ou a chaleira no fogão, escutar a máquina batendo a roupa na área ou o caminhão do lixo se aproximando pela rua sem perder a eficiência nem a rapidez. Os dedos se mexem, experientes e leves, e o monte de feijão limpo e suculento vai crescendo enquanto um outro menor vai sendo jogado no lixo sem dó, porque elas sabem que grão ruim não presta e que só com os bons é que farão um prato gostoso para o almoço da família...
E hoje pela manhã, fui eu quem sentei na mesa da minha cozinha toda branca e recém limpa, para realizar esta tarefa que, não sei por quê, tem um quê de terapia relaxante, de serenidade, concentração e simplicidade que parece afastar todas as preocupações da nossa mente, que só se concentra na inspeção e escolha dos grãos estragados para separá-los dos que vão para a panela do almoço...
Então, no meio daquela tarefa, e percebendo como é fácil distinguir os grãos danificados dos que prestam, começou a me ocorrer que a gente, na verdade, tem a mesma percepção e eficiência para enxergar e deixar de lado as coisas erradas nesta vida, as nossas próprias faltas, a nossa covardia, nossos medos e atitudes egoístas e mesquinhas. Pois não são elas feito grãos que não prestam para se fazer um prato de comida? E assim como podemos escolher e jogar fora aqueles e ficar somente com os bons, que nos alimentarão e nos darão força, ajudando-nos a crescer e nos desenvolver fisica e mentalmente, acho que podemos também aprender a distinguir e separar aquilo que nos faz mal, aquilo que nos afasta do bom caminho, da partilha, da compaixão, da compreensão. E o melhor é que deste jeito não alimentaremos somente o nosso próprio coração com boa comida, mas também alimentaremos o dos outros que, com certeza, vão querer repetir o prato e até aprender a receita!.''

Paz Aldunate é produtora cultural em Ibiporã

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