Hoje não tenho tempo mais para pensar no futuro, acho que ele ficou lá no passado, vivo o presente. O meu futuro é hoje amanhã quem sabe.
Hoje penso apenas em coisas do passado, na infância muitos sonhos de criança como um brinquedo, uma bicicleta ou uma televisão, na juventude de poder passar nas provas da Academia Brasileira de Aviação e ser um piloto da Força Aérea Brasileira ou fazer um vestibular e me formar em Professor de Educação Física, começando a fase adulta ganhar um dinheiro na loteria, comprar uma fazenda e ser um grande criador de gado, mais adulto ainda arrumar um bom emprego, um bom salário, me dedicar bastante para poder conseguir chegar à aposentadoria.
Os sonhos do passado alguns concretizaram outros não, mas não me deixaram triste ou magoado, pois consegui outros até então importantes para a minha sobrevivência hoje, não foram fáceis.
Hoje não preciso vestir a melhor roupa ou calçar o melhor sapato para fazer uma entrevista de trabalho em uma empresa, não preciso cumprimentar aquela pessoa que cruzava todos os dias o meu caminho e não era correspondido, não preciso suportar aquele colega de trabalho que não fazia as tarefas de acordo e nos deixava sobrecarregado, não preciso sorrir para aquele chefe que tinha uma vida torta conturbada, bem diferente da minha, que contava aquelas piadas nojentas sem graça, aquelas vantagens da sua vida vazia. Eu era obrigado a ouvir tudo aquilo, concordar, dar risadas, ser falso para não criar clima de desconforto ou perseguição me queimando perante outros colegas puxando meu tapete.
Fico imaginando as pessoas que estão começando hoje, passar por tudo aquilo que passei, engolir muitos sapos, calar mesmo sabendo que estava fazendo a tarefa correta e alterar sua rotina para atender uma chefia despreparada que estava no comando apenas por ser autoritária - exigência de seu patrão.
Hoje saio pelas ruas sem compromisso, cumprimento as pessoas que me cumprimentam, visto aquelas roupas velhas, calço aquele chinelo que me faz bem e não tenho chefes.
Não foi fácil, anos e anos pensando como seria minha vida no futuro, mas acho que cheguei lá. Hoje não penso mais em futuro, não tenho tempo.

Antonio José Rodrigues é aposentado em Londrina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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