As fotografias antigas permanecem. Em cima do guarda-roupa, acomodadas em malas de couro, resistem ao tempo. Um velho amigo que transita livremente de um lado para o outro, remexendo os papéis amassados da memória. Apoio indispensável e conhecido íntimo de suas convicções e amarguras. Amareladas pelo esquecimento também se comprimem em álbuns de retratos com capas de papelão ou de veludo adamascado.
Nas fotografias antigas encontramos avós e avôs, tios e tias ou pessoas que nunca vimos e que, no entanto, nos sorriem gravemente como forçados à polidez. A posteridade pode ser exigente. Protagonistas e figurantes congelados no piscar dos olhos do tempo, flagrados indefesos pelo abrir e fechar dos obturadores implacáveis.
E onde estarão, quando e como se foram? Algo em seus olhos revelam certeza e alegria.
Encontramos também paisagens em branco e preto: árvores, animais, flores, ruas e casas, tudo dentro de uma uniformidade desbotada. Um caos plastificado em cinza.
Quando encontrei uma fotografia de minha irmã comigo e outras crianças das quais nem me lembro, percebi certa indiferença minha por aquele acontecimento. Sinalizei com os olhos espremidos para o fotógrafo sobre o desconforto do sol forte. Minha irmã tentava me animar apontando para a câmera. Também não há resquícios do fotógrafo em minha memória. Percebi que nunca olhamos para o fotógrafo que se esconde à luz do flash e, por isso, nunca nos lembramos dele: se alto ou baixo, homem ou mulher, branco ou negro, velho ou jovem. O que sabemos é que havia apenas uma silhueta atrás de um objeto mágico. Cada enquadramento traz em si um esboço de mistério.
Minha irmã já se foi deste mundo, mas aquele momento que ficou gravado em papel se pretende único em minha lembrança.
Maria Helena de Moura Arias é jornalista em Londrina

mockup