Dentro do ônibus, senti estremecer. O barulho da lataria chegou aos meus ouvidos. O choque entre duas máquinas logo deixou claro um acidente; a imprudência de um fincou uma morte derradeira sobre o outro. Na verdade não se sabe quem pecou, porém o fatal aconteceu dando um ponto final ao corpo estendido no chão.
Desci do veículo e me choquei com o que vi: uma vida jogada em cima do asfalto quente. A desfiguração interrompeu o equilíbrio natural. O pensamento ganhou proporção, e uma cadeia de ideias me veio à cabeça (uma família, os bens, as conquistas). Uma história ali terminara. O coração que foi interrompido já não toma ordem natural das coisas. Fiquei minutos refletindo as minúcias que, de alguma forma, ganharam valores incalculáveis - um abraço que ele ficou devendo a alguém ou até mesmo um telefonema para um amigo que o esperava são exemplos dolorosos.
O vazio foi deixado às margens da relação humana e familiar. O vínculo pessoal foi desconectado pela sua ausência carnal. O espírito é abstrato demais para aceitá-lo como substituição corpórea. Temos a boba ideia de que ele está entre nós, porém a dificuldade entre conciliar a perda e ter como companhia apenas a alma é grande o bastante para não levar a diante uma vida.
"Um apressado bateu num homem", concluí. A alta velocidade acelerou o fim do sujeito. Imprevisivelmente os fatos ganharam formas horrendas e inaceitáveis. O abalo das máquinas mal chega perto do abalo pessoal. A rotina intensa e o stress chegaram a um ponto em que a morte alertou o perigo da imprudência. A ambulância com o sua sirene ensurdecedora amparou o corpo e o levou. E, os transeuntes seguiram sua rotina normalmente. Foi-se o homem sem vida; foi-se os curiosos; foi-se tudo.

Bruno Petri é estudante em Ibiporã

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