CRÔNICA - Feliz Dia das Bruxas
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 30 de outubro de 2003
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
''Trick or treat'' (doces ou travessuras!) é ingênuo demais, americano demais para lembrar o Dia das Bruxas. A bruxaria foi um dos primeiros poderes delegados à mulher, depois do pecado... No mundo antigo, elas nasciam rainhas ou viravam feiticeiras para terem autoridade. Nos oráculos da Grécia, as pitonisas entravam em transe ou, em linguagem moderna, ''piravam na transa'' fazendo previsões e, até por isso, não se davam muito bem. Cassandra pagou caro por ter antecipado a guerra e a queda de Tróia sem que ninguém lhe desse crédito. Não deve ter sido fácil. Mais tarde, já na Idade Média, elas arderam em fogueiras. Tempos obscuros em que qualquer mulher sensível ou mesmo esquizofrênica era condenada. Libido exaltada, delírios noturnos, sexto sentido eram suficientes para determinar que o sexo feminino tivesse ''parte com o demo.'' Mas de nada adiantou tanta condenação. Passados os séculos, elas continuam por aí, as diferentes. O que determina essa diferença nada mais é que um modo enviesado de ver o mundo, sem necessidade de cultivar rabanetes, criar verrugas no nariz, usar chapéu pontudo. Acender fogueiras faz bem, principalmente as interiores de acordo com as mudanças do corpo e das estações. Voar faz parte do jogo, pelo menos na imaginação. Hoje as mulheres assumem uma certa bruxaria sem pudor. Elas estão fazendo muitas coisas. Me lembro de Márcia Frazão, que mora num sítio, tem uma horta imensa, e livros que ensinam a aproveitar a água da chuva para fabricar filtros de amor. Ilusão? Mentira? Talvez uma grande brincadeira, porque precisamos acreditar em alguma coisa que transforme o dia ou a noite. E não há sensível ou ''louco'' que não seja impelido a uivar quando a lua inunda o céu de claridade.
Para falar de bruxaria é preciso evocar mulheres especiais. Clarice Lispector e seu conto ''Onde Estivestes de Noite?'' em que ela mesma, só pode ser ela, participa de um ritual. Naquela linguagem elaborada, poética, profética, difícil não crer ''en brujas''. E a potente, visceral, nada angelical Hilda Hilst isolada com seus cachorros na Chácara do Sol, em Campinas. Solidão é a arte de quem tem poder. Hilda só quer a natureza como companhia. Escrevendo ficção, poesia imensa, livros eróticos para tirar um sarro do mercado que não a compreende. Mulheres mágicas fazem o que gostam. E, através da história, até os certinhos tiveram que se dobrar ao Dia das Bruxas, derivado de antigas festas pagãs. Neste dia, os romanos celebravam as colheitas e a deusa Pamona, considerada a protetora das frutas. Também pode se tratar de referência a um antigo festival dos mortos, celebrado pelos druidas na Grã-Bretanha. Hoje este 31 de outubro, véspera de Todos os Santos, remete a um acordo do papa Gregório VIII (835) com os pagãos transformando a festa que já existia numa comemoração também para os convertidos. Aparadas as arestas, feitas as pazes resta um traço ''gauche'' na data. ''Trick or treat''. Que nada! Açúcar demais enjoa e bruxa gosta mesmo é de andar na contramão. Celebrem. Rock cai bem na noite vazia.


