CRÔNICA - Feijão
Para escolher o feijão, a atenção é requisito chave. Cada detalhe não pode passar batido. O grão de milho, o pequeno pedregulho e a ervilha perdida no pacote não podem parar na panela, até porque no final, nenhum estômago fará boa digestão ao comê-los.
Não existe idade mínima para a escolha do feijão, mas aqui onde eu vivo, o correto é ter domínio do feito aos 18 anos. Eu resolvi me aventurar logo aos 17, para não retardar o que mais tarde se tornaria uma tremenda responsabilidade. Lembro que optei primeiro por uma marca mais orgânica, porém não deu muito certo e tive que me contentar com um que há algum tempinho servia à minha mesa. O sabor deste feijão que há quase uma década me sustenta, hoje, até que é bom. Ajudou muito a saciar a fome de famílias que até então eram renegadas por uma marca alimentícia mesquinha e aristocrática, que parecia portar viseiras para não enxergar a pobreza de quem vivia mais na ponta de meu país.
A escolha do feijão é uma rotina diária. Cada vacilo que você dá, uma surpresa pode parar em seu estômago, te dando dores de barriga mais tarde. Eu prefiro me atentar a essa atividade todos os dias para manter minha saúde. Meu organismo precisa de ferro, e isso só esse grão pode me dar.
Este ano, infinitas variedades bagunçaram minha escolha. Ora pensei em mudar, ora pensei em continuar com aquele que me alimentou bem. Porém, seu bom sabor já está me enjoando e em seu pacote, ultimamente, venho encontrando muitas sujeiras. Este ano vi na TV um que dizia ser o melhor porque não mudaria ao sabor das circunstâncias; outro informou que iria mudar a tradição. Houve também aqueles que prometeram revolução, outros que eram tão tradicionais que nem um caldo de bacon ajudaria realçar seu sabor, para deixá-lo mais apetitoso.
A cada dois anos, a escolha do feijão se intensifica. Para quem vem escolhendo diariamente já sabe como saciar sua fome. Mas há muitos que ainda quebrarão o dente ao se deparar com alguma pedrinha. Além de outros que escolherão uma marca cuja propaganda é sensacional, porém sua qualidade péssima manterá a indigestão.
Eu não quero colocar pra fora o feijão que eu comprei, escolhi e cozinhei. Mas também não quero ver ninguém com o bucho vazio e a língua afiada. Seria bom todo mundo passar os próximos quatro anos mastigando feliz ao invés de soltar injúrias sobre o feijão que foi escolhido por vontade própria.
Bruno Nascimento é estudante universitário em Ibiporã
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





