CRÔNICA - Eu sei o que eu fiz em todos os verões passados
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de maio de 2008
Márcio Américo 
Tem coisas que ninguém diz, coisas que são melhores trancadas naquele sótão poeirento e lúgubre de nosso inconsciente. Este sótão abriga coisas realmente vergonhosas, como por exemplo aquela tarde em que um garoto defecou nas calças em plena sala de aula e voltou pra casa todo sujo.
Mas não pense que por estarem guardadas estas coisas permanecem em estado de imobilidade, não! Elas movimentam-se, exalam um odor característico de rancor, medo, inveja, solidão e uma estranha vontade de correr.
A cada ano vamos apinhando este velho sótão de novas coisas: grandes, pequenas, valiosas ou não. O grande problema é abrir o sótão, a nossa particular caixa de Pandora. Proponho um pacto: façamos de conta que somos seres humanos compreensíveis, que não somos mesquinhos, que somos solidários até mesmo para aquelas coisas vergonhosas, e assim, tendo em mente que somos este tipo de criaturas, vamos abrir calmamente o sótão, não de todo, uma fresta já está de bom tamanho, como o mágico ao abrir a caixa preta, para que a platéia tenha que mover a cabeça pra olhar lá dentro.
Tá, eu sei, não é fácil, mas alguém tem que começar.
Eu tenho um sótão aqui, igual ao teu, abarrotado de coisas. Vou abrir algumas. Prepare-se.
- Eu fiquei muito sentido com a morte dos Mamonas Assassinas
- Torci para o Bin Laden naquele 11 de setembro
- Eu falava palavrões durante os hinos da minha igreja
- Gosto de Roberto Carlos
- Fiz meu irmãozinho tocar inocentemente a lâmpada incandescente do abajur
- Eu já chorei em final de novela
- Contei piadas em velórios de parentes queridos
- Soltei pum e coloquei a culpa em crianças inocentes
- Votei no Lula... duas vezes!!!!
- No ônibus, fingi que dormia pra não ter que ceder o lugar a alguém debilitado
- Já fingi que gostava de Ingmar Bergman e James Joyce
- Eu já beijei de olhos abertos
- Cuspi na sepultura de alguém que eu não conhecia
- Deixei de dar carona a um conhecido só pra curtir a solidão do trajeto
- Li a mão de meninas suburbanas a troco de vinho
- Tive inveja do cara que se deu mal
A lista é longa, mas como disse, não precisa pressa, vamos abrir devagar as portas deste ambiente sinistro. Pronto? Vamos lá, afinal de contas, o que é que você anda escondendo aí neste lugarzinho escuro?
MÁRCIO AMÉRICO é ator, dramaturgo e escritor, autor dos livros ''Meninos de Kichutes'' e ''Corações de Aluguel''


