Ainda com o gosto do creme dental mentolado na boca, olhei pelo basculante do banheiro e percebi o sol se esbaldando na água azul da piscina... Ouvi o grito do bem-te-vi anunciando, além do novo dia, quem mandava no quintal e, após as devidas abluções, diante do espelho de meia-parede, troquei uma ideia comigo mesmo, e falamos dos 54 completados no último abril.
Reclamei, ao "espelho meu", a falta dos cabelos que, aos poucos, foram desertando, feito a melanina que os descoloriram... Minha pele perdeu a textura e as letras diminuíram diante do meu olhar, justo eu, fiel confidente das boas escritas.
O espelho, interrogativo, me interpelou... Ponderou sobre as vitórias alcançadas... Esfregou na minha cara os bens patrimoniais, a mesa abastada, o trabalho na maior empresa do Paraná, os filhos fantásticos e a, doce, namorada - companheira de viagem –, que há quatorze anos está lutando comigo.
O "espelho meu" lembrou os amigos que comigo peleiam e as raras derrotas, que serviram para lembrar que não somos perfeitos, mas passíveis de falhas que, por vias tortas, contribuem para o crescimento como ser humano, ciente das limitações, porém, com fantástica capacidade de adaptação e reação.
Por fim dei razão ao "espelho meu"... Realmente, muito pouco a reclamar... Foram muitas, claras e contundentes vitórias, ainda que tenham vindo aos quarenta do segundo tempo, talvez por isso, se fizeram tão especiais.
Há tempos perdi o medo dos desafios... Meu próprio medo que, em alguns trechos, tentou canibalizar minha coragem... Hoje observo tudo com olhar desafiante e pronto para prosseguir.
O apito dos 54 me convida para novos desafios...
Sigo em frente!

João Cândido da Silva Neto - eletricitário em Santo Antônio da Platina (PR)

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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