Durante a infância, a cidade ainda é um espaço confuso, cheio de ruas e construções. Às vezes com um lago ou um recorte de bosque, onde temos uma casa e um parquinho para brincarmos. Depois, conforme nossa própria estória vai sendo escrita criamos vínculos com certos lugares e a cidade se torna um palco de recordações de momentos nostálgicos, onde passado e presente se sobrepõem para preencher os vazios irreparáveis.
Há dois anos atrás a menina mais linda deste mundo retornava para sua casa do outro lado do Atlântico. Desde aquela despedida descobri que a sensação de um dia perfeito independe do clima, mas unicamente da presença de quem amamos. Hoje eu caminho por Londrina e ao olhar para certos lugares a saudade abre passagens secretas e então eu passeio à vontade pela reconstituição daqueles nossos encontros. Quando nos encantamos por alguém os lugares onde vivenciamos este encantamento passam a ter um novo significado e tornam-se partes de nossas lembranças e estórias pessoais. Eu não consigo visitar a feirinha da lua sem recordar aquela noite em que a realidade parecia um esboço de criança, obra de arte ingênua, a nos distrair enquanto a felicidade escapava sutilmente. Embora a feirinha seja realizada toda quarta-feira, hoje para mim aquilo é apenas uma encenação triste daquela noite sem a personagem principal. E, esta impressão está em todos os ambientes nos quais sua presença ainda é tão nítida quanto os primeiros raios de sol que inauguram as manhãs.
Uma vida sem deslumbramento é um engano terrível. Quem nunca saboreou a doce melodia de dois corações batendo em perfeita sincronia não fez nada mais do que desperdiçar todo seu tempo e sua energia. Vale arriscar tudo por isto. É como atingir o topo da montanha mais alta e perigosa da terra. É como ter asas para sobrevoar todos os continentes e poder aterrissar num colo macio. É como banhar-se todos os fins de tarde nas águas puras e mornas da fonte da juventude. É como sugar o néctar da vida. O resto são apenas tentativas inúteis de ocultar o fracasso das nossas relações afetivas. O resto é um esforço em vão.
O que seria deste mundo sem as paixões que atenuam os horrores e nos escancaram as portas do paraíso? Meus pensamentos seriam balõezinhos vazios e esta cidade seria somente um espaço abstrato onde nossas vidas se processam de infinitas maneiras e com intensidades distintas. Mas graças aos afetos e à memória, Londrina é um lugar encantado onde é possível se deliciar com a vida.
Tony dos Santos é arquiteto e urbanista em Londrina

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