"Cerejeiras. Não tem dúvida de que as primeiras que dão o aviso da chegada da primavera são as cerejeiras. Quando ainda as temperaturas não se decidem a subir e as nuvens se juntam para esconder o sol com frequência às vezes desalentadora, os galhos destas árvores já começam a se encher de brotos, sem alardes, quietinhos, e de repente, uma manhã somos surpreendidos pelas suas copas carregadas de pequenas e perfumadas flores cor-de-rosa em todo lugar.
Assim desfrutava eu da vista das cerejeiras floridas em todos os cantos do parque pelo qual passava à caminho do mercado. Era quase cinematográfico... Cheguei numa esquina com meu carrinho e parei para esperar a luz verde junto de um barulhento grupo de estudantes. Atravessamos e, ao passar pelo costado do prédio da universidade, onde tem um pseudo-estacionamento, vazio naquele dia, me deparei com uma outra cerejeira. Só que esta encontrava-se caída sobre a grade do pátio que dava para a rua. Segurava-se à terra apenas por um fino pedaço de tronco torto. Diminui o passo para contemplá-la. Com certeza, algum motorista desavisado tinha esbarrado nela ao estacionar, quase que arrancando-a de raiz. Nessas condições, a árvore poderia ter morrido, teria sido o mais lógico. Porém, este exemplar tinha decidido não fazê-lo e ali estava, grande e forte, recostado sobre a grade, agarrado ao chão por um pedaço ínfimo de tronco, carregado de flores, celebrando a primavera como todos os demais, lindo, inteiro, corajoso, teimoso... Então pensei que nós deveríamos ser -e às vezes somos- feito aquela cerejeira que, mesmo caída e em condições precárias, era capaz de florescer e nos brindar o espetáculo da sua beleza e seu perfume. Porque estar caído ou em condições adversas não significa que estejamos vencidos, que não tenhamos os meios, a criatividade e a vontade de nos levantar e seguir adiante para realizar nosso objetivo. Todas as feridas se curam, com ou sem ajuda, e o pouco que temos pode ser muito, pode ser tudo. Se não paramos para nos lamentar e culpar o mundo pelas nossas quedas, poderemos em breve retomar o caminho, continuar o projeto e chegar à meta. Nossas flores podem ser pequenas, porém incontáveis, e podem oferecer um espetáculo que alegre, console e inspire o coração dos homens."

Paz Aldunate é professora, escritora e artista plástica em Santiago (Chile)

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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