Hoje eu vi um pedaço de pano. Pequeno. Nunca nada foi maior. Estendido na calçada, forrava o chão. O chão é sujo. E o pano não permitia que o cachorro de aparência cansada se deitasse no chão. Era só um cachorro. Mas o chão é sujo. E o pano não permitia que a comida do cachorro fosse colocada sobre o chão. Era para um cachorro. Mas o chão é sujo. O dono teve o cuidado de estender o pano para que o cachorro pudesse comer e descansar. O dono sabe que o chão é sujo.
Ao redor do pescoço do cachorro, uma coleira improvisada. Um pedaço de fita ou coisa do tipo. A extensão da fita amarrada aos pertences do dono. Era só um cachorro. Mas tinha cuidados. O dono entende a importância de cuidados. O dono entende que o chão é sujo.
O dono era um catador de lixo, que parou com sua carriola lotada de papelão próximo ao meu ponto de ônibus. Parou para que o cachorro descansasse. Não no chão. O catador de lixo sabe que o chão é sujo. Ele sabe como deve ser. Ou como deveria.
O cachorro comeu e ganhou mais um pouco de ração. O dono deixou sua carriola parada ali e atravessou a rua. O cachorro com a carriola. O dono atravessando a rua. A extensão da coleira amarrada à carriola. O cachorro junto aos pertences do dono. O dono já ia voltar pra buscar seus pertences. O dono já ia voltar pra buscar seu cachorro. O cachorro podia se sentir seguro. O dono sabe a importância de segurança. O cachorro podia descansar tranquilo. O dono sabe a importância de tranquilidade.
O dono era um catador de lixo de aparência cansada. Do outro lado da rua, olhou para dentro das lixeiras. Provavelmente o que faz todos os dias. Mas ele não esquece que a lixeira é suja.
Pessoas e carros passam pelo catador de lixo. Provavelmente o que fazem todos os dias. Mas eles? Eles esquecem.
Hoje eu vi um cachorro e um homem. É comum ver cachorros. Seres humanos, nem tanto.

Maria Isabela Marques é estudante de Jornalismo na Universidade Estadual de Londrina

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