CRÔNICA - Duas irmãs
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terça-feira, 19 de maio de 2009
Ricardo Sathler 
Acomodado num banco do calçadão, Renan Siqueira espalhava pela Rua Barão de Itapetininga, em São Paulo, o seu olhar distraído. Nuvens ralas, frouxamente coloridas de carmim e laranja, vagavam preguiçosas no céu cingido pelos topos dos prédios perfilados. A tarde descia; e, para os lados do poente os vidros dos edifícios tomavam um matiz amarelo-pardo.
Aquele fora um dia estafante para Renan. Ultimara os seus negócios na capital; e na manhã seguinte retornaria a Londrina, onde residia. Tencionava jantar antes de voltar ao hotel; enquanto isso, fazia hora por ali. Já com as lojas fechadas, a rua acercava-se da quietude da noite; com alguns retardatários encaminhado-se para os seus destinos, com passos rápidos e expressões ausentes.
Ao seu lado, uma voz feminina mencionou o nome da cidade onde ele vivera a infância. Somente então, notou, sentadas no mesmo banco, duas senhoras idosas conversando a meia voz. Extremamente semelhantes, tinham os olhos azuis espertos, faces magras cobertas com peles citadinas; e usavam vestidos simples de algodão e blusas de malha leve. Falavam de assuntos cotidianos, pequenos achaques, parentes distantes, costumes modernos e filmes de televisão.
Em dado momento quiseram saber as horas; e assim, Renan introduziu-se, inesperadamente, numa conversa macia, rica e repousante. Ficou sabendo que as duas eram irmãs, solteironas, moravam juntas e sozinhas num apartamento próximo. Tinham, espalhados pela cidade, um irmão, uma irmã e alguns sobrinhos, com os quais se encontravam raramente. Nos gestos, no brilho dos olhos, e em todas as palavras as boas senhoras transluziam paz, conformismo e contentamento. Uma se chamava Esperança. O nome da outra era Felicidade.
Ao se despedirem, a mais velha, a Esperança, comentou com um sorriso dilatado:
- Pois é, moço, temos os nossos problemas, mas, apesar de tudo consideramo-nos bem integradas no fluxo normal da vida. E se isto não bastasse, nós, como irmãs, sentimos que pertencemos uma à outra. Parece engraçado dizer, mas você tem diante de si a Felicidade da Esperança e a Esperança da Felicidade. Então, suaves como eram, partiram de braços dados e em passos lentos.
Renan acompanhou-as com o olhar pensativo e enlevado, vendo-as circundar a esquina, enquanto sentia-se possuído pela sensação profunda e estranha de que a Esperança e a Felicidade ainda estavam ali, ao seu lado; e ficariam com ele, para sempre.
RICARDO SATHLER é cirurgião dentista e membro da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].


