Vou pedir um tempo ao meu dono. Sinto que ele fica mais tempo comigo do que com a família. Às vezes me sinto sufocado.
Agora mesmo, tarde da noite, embora já de pijama, ele não desgruda. Acho que é o tal do toque. Se continuar assim, logo terá aquela doença do LER (lesão por esforço repetitivo).
Seis da manhã. Ele desperta com a mesma música. Em seguida, com mais um toque, ele me apaga de novo.
Seguimos com o café. Lá estou eu, em posição privilegiada. Me coloca na mesa, antes mesmo que a xícara e o pão. Me sinto importante. Quase um rei.
No elevador, sou a verdadeira proteção e salvação dos tímidos. Já entra comigo na mão. Às vezes disfarça que está navegando.
Momento de pânico. Vou partilhar alguns minutos no carro, a caminho da escola do filho e do trabalho. Eles com cinto de segurança, eu totalmente desprotegido, solto no console do veículo . O filho também tem celular, mas como não liga o "bluetooth", não partilho as novidades. Ficamos somente no visual (off line).
De volta pra casa, assistimos ao jornal . Percebo que os celulares estão "bombando". Até mesmo na famosa operação Lava Jato, com as delações premiadas, fruto das gravações secretas de antigos companheiros, fogo amigo. Celulares corruptos ou mesmo parentes distantes: tablets, smartphones, Iphones.
Imagino os mesmos sendo conduzidos pelo japonês da Polícia Federal. No lugar da película, uma tarja preta no visor, para não causar constrangimento.
Outro dia compreendi melhor qual poderá ser meu destino. Meu dono resolveu finalmente descartar uma impressora antiga, daquelas matriciais. Fomos então a um descarte de lixos eletrônicos. Que imagem triste. Quantos celulares desconectados do mundo. Quanta sucata. Senti uma lágrima no meu visor. Ele estava realmente emocionado com seu descarte. Percebi que ali, naquela aparente bobina da máquina fria, já tinha rolado muito calor humano. Aquele simples aparelho já tinha impresso muito sentimento e história.
Voltamos para casa abalados, ainda com a imagem daquele cenário de modelos ultrapassados e abandonados. Acessei o Google, e constatei que todos têm direito a um último desejo. Naveguei pelo Youtube e encontrei uma música do Toquinho e Vinicius:O Caderno. Na última estrofe da canção, senti meu "chip" mais apertadinho e decidi qual será meu último pedido: "Só peço a você um favor, se puder, não me esqueça num canto qualquer".

Amarildo Pasini é engenheiro agrônomo, em Londrina

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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