Era horário de almoço e ele a esperava fazia 30 minutos. Atrasada, ela chegou:
- Desculpa. Trânsito. Seguinte, jogo rápido! Você é muito legal, gosto de ter você e tal, mas não dá. Pensei bem e acho melhor a gente terminar.
- Bom, já que é assim – magoado, tira da mochila o coração dela – tô te devolvendo. Tá bem limpinho sem nenhum arranhão.
- Ah, sim, claro. Deixa eu pegar o seu – procura na bolsa. Espera aí... eu acho que botei no zíper de fora... ih, menino, onde tá – continua procurando – será que eu deixei em cima da geladeira? Até colei um papel escrito: Devolver logo!
- Viu - diz com os olhos marejados – anda rápido que eu preciso voltar pra empresa...
- Calma lá – atrapalhada interrompe-o – eu acho que coloquei como chaveiro da chave do carro... nossa, hoje eu não tô achando nada. De manhã mesmo não encontrei a escova de cabelo e o coque eu fiz com um aquele lacrezinho do pacote de pão de forma, acredita? Ai, onde tá?
- Eu não acredito que você perdeu? Eu cuidei do seu tão bem.
- Ai – sem ter prestado a atenção no que o ex acabou de falar – devia ter colocado como chaveiro de celular. Assim falaria com você pelo Whats...
- O quê? Iria terminar pelo Whats?
- Ai, fresco, ia mandar como mensagem de voz. Garçom – assovia – traz um papel aqui!
- Você é desumana, iria terminar por mensagem e ainda por cima perde meu coração! Ei – vendo-a dobrar o papel – você tá fazendo um origami?
- E você queria que eu pedisse uma argila e moldasse um coração? Mando bem em EVA e isso é moleza, meu filho. E outra, isso é só pra você não ficar sem nada durante essa semana. Você vai demorar um pouco pra me esquecer e até fica feio dar seu coração pra qualquer lambisgoia logo depois que separou, não é? Prontinho, está aqui – entrega-o.
- Faz o seguinte, fica com seu origami, otária. E se achar meu coração, nem precisa jogar no lixo. Ficou com você esse tempo todo, o que dá no mesmo!
- Ei, espera – olha pra mesa e vê seu coração devolvido. Gente, não tem um arranhãozinho mesmo. Bem que minha mãe fala que sou muito desorganizada com as coisas dos outros. Garçom, uma água, por favor.

Bruno Petri é estudante universitário e mora em Ibiporã

Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].

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