CRÔNICA - De volta à estrada
Acordei de repente, as pálpebras muito pesadas tanto quanto minha cabeça, como se um pesado animal tivesse sentado por um longo tempo sobre mim. Sentia o corpo mole e a visão provavelmente estava turva, se bem que eu não podia enxergar nada, pois estava num ambiente completamente escuro no qual haviam me jogado e com as mãos fortemente amarradas atrás das costas. Cada vez que tentava me mover, sentia os músculos e a cabeça rodopiar, afinal, ainda estava dopado devido ao sedativo que me aplicaram com uma injeção no pescoço.
Despertei devido a um barulho muito forte vindo do lado de fora e que aguçou meus sentidos; um forte estalo como se fosse uma batida, talvez um disparo. O que diabos estaria acontecendo do lado de fora? Caso fosse um tiro, com certeza era um mal sinal e a situação ficaria ainda mais complicada. Desperto e consciente pude ouvir vozes ainda que o som fosse um pouco abafado: - "todo mundo de cara pro chão e mãos na cabeça! E não tentem nenhuma gracinha!"
O que poderia ser? Após aquela fala ameaçadora havia apenas silêncio... "você, quietinho aí no chão, não ouviu?" mais uma fala imperativa; poderia não ser algo bom. Talvez alguma rebelião entre eles ou algo do tipo. Meus pulsos doíam devido ao aperto das cordas; o pescoço também doía, pois eu estava há muitas horas deitado de mau jeito naquele chão desconfortável.
Fechei os olhos e vi em minha mente a imagem de um dia muito claro de sol, céu azul e um gramado bem verde. Uma voz de menino ecoava ao gritar "pai", e de repente um garotinho apareceu correndo, vindo em minha direção...
Um forte barulho de coisas metálicas rangendo me despertou. Cochilei por alguns minutos, pois tenho certeza que sonhei; as duas portas enormes se abriram e uma luz forte invadiu o ambiente um homem alto e bem vestido de farda olhava para mim e caminhava na minha direção. "Agora está tudo bem rapaz, venha para fora" era um policial, cortou as cordas que prendiam meus pulsos e, quando desci do caminhão, havia mais dois policiais, e os homens que me sequestraram já estavam algemados dentro de um camburão.
Algumas horas depois do depoimento e interrogatórios aqui estou de volta à estrada com as mãos firmes no volante. Os pulsos e o pescoço ainda doem um pouco... mas devo me apressar, pois certamente o menino que corria no verde gramado me espera no portão de casa.
Roberto Alves é assistente administrativo em Londrina
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





