CRÔNICA - Dante, meu italiano inesquecível
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terça-feira, 20 de maio de 2008
Paulo André Chenso 
O Dante ficava na Rua Piauí. Era uma casa antiga, com porta e janelões de vidro e um ambiente simples e despojado, mas muito agradável. Mesas quadradas, cobertas com toalhas vermelhas, arranjavam-se em fileiras pelo salão. Aqui e ali, réstias de alho e cebolas se entrelaçavam, entre garrafas de vinho italianas, com suas cestinhas de palha, penduradas do teto ou nas paredes. Tachos e caçarolas, pendurados aqui e acolá, compunham, com os cachos de uvas e folhagens, o cenário romântico. Assinaturas famosas espalhavam-se pelas paredes, testemunhas silenciosas da qualidade e do charme do lugar. Por suas mesas passaram Vinicius de Morais, Toquinho, Rita Lee, Chacrinha, entre outros.
Na madrugada, nós, solteirões solitários, nos sentávamos à mesa: eu, Niltão, Pierre, Clóvis e o Odair. E ali, entre espaguetes e capeletes, salames e provolones, regados com a cerveja mais gelada, jogávamos, distraídos, nossa marrequinha. Um jogo bobo de palitos, no qual, ao contrário do normal, quem perde ganha. Só boêmios inventariam tamanha idiotice.
De repente, a voz e o sotaque inconfundíveis alcançavam nossa mesa, vindos lá do fundo do restaurante. Atrás deles, o sorridente e brincalhão italiano.
Baixinho, de corpo atarracado, espremido dentro de um paletó creme combinando com a calça marrom amarrotada, este italiano nos chegou vindo de Letche, no norte da Itália, no final dos anos 50. No meio da cara quadrada, o sorriso sempre franco e gentil. No modo afável de falar, um cavalheiro, na gesticulação das mãos, um autêntico carcamano. Dante Santaguida estabeleceu-se na Avenida Paraná, ao lado da antiga loja Móveis Cimo, com uma pequena pizzaria. E foi ali que eu, um menino na boca da adolescência, conheci este meu amigo inesquecível.
Anos depois, o maestro de teatro de marionetes mudava-se para o nuovo ristoranti, na Rua Tupi.
Vinha sempre à nossa mesa - porque já era madrugada. Sentado ali, conversava. Sentia-se entre amigos, gostava de contar suas aventuras até chegar a Londrina; a saudade de casa, os amigos que deixara em Letche. E, ali, parlando e parlando, ríamos, como só riem despreocupados, os jovens...
Nada, porém, fazia brilhar mais os olhos de Dante do que falar de seu adorável teatro de marionetes, que ele dirigia com raro talento. Naquelas memoráveis noites bebíamos, conversávamos, namorávamos, conhecíamos pessoas, algumas famosas, outras nem tanto. Foi ali que cumprimentei, emocionado, Vinicius de Morais... Foi ali que lancei ao vento minhas primeiras juras de amor, não correspondidas... E foi ali, solitário e triste, por conta daquelas mesmas juras, que tomei meu primeiro porre.
E, quando comparava, dizendo que não trocaria dez Alighieri por um Santaguida, ele ria e me chamava de idiota... Mas, no fundo, ele gostava.
O progresso, no entanto, atropelou os sonhos do italiano. Era preciso demolir o ristorante, pois atravancava o desenvolvimento da cidade, no caso, um moderníssimo prédio que abrigaria a mais avançada tecnologia em comunicação, a Sercomtel.
Aos lamentos e aos protestos, fizeram-se moucos os ouvidos. Mais importante que aquelas bobagens, o progresso fez vir abaixo o restaurante do italiano. Com ele se foram a alegria, o sorriso, e os gestos largos, e iniciou-se o 'inferno de Dante'.
Poucos anos depois, silenciosamente, sem alardes, timidamente assim como aqui chegara, Dante nos deixava. Um infarto fulminante, em pleno Calçadão, calou a voz agradável, desfez o sorriso franco, fechou, para sempre, as cortinas do teatro de marionetes...
PAULO ANDRÉ CHENSO é médico, professor e escritor, com três obras publicadas Malês: Sangue em Salvador; História crítica do Brasil; Como não chamar meu filho


