CRÔNICA - Crônica do tempo escasso
Às seis da tarde de uma segunda-feira, apertava-me numa esquina e noutra do trânsito de Londrina. Entre as avenidas J.K e Higienópolis, ouvia no rádio minhas músicas favoritas. A verdade é que eu nem me importava mais. Aquilo se tornara rotina. Ao menos meia hora por dia parado naquele cruzamento. No entanto, dessa vez havia algo diferente. Jamais demorei tanto para locomover-me um metro.
Depois de alguns impropérios dirigidos ao prefeito e de maldizer a mobilidade urbana, percebi que havia um grave acidente a uns 500 metros de mim. O bom senso, como de costume, sucumbiu à curiosidade. Saí do meu carro e fui até lá. Um carro popular havia colidido com um caminhão de carga. Muitos outros curiosos feito eu se aglomeravam para saber de mais detalhes.
Aproximei-me e, em meio aos destroços e ao caos, notei que havia um buquê de flores próximo à porta de trás do veículo. Abaixei-me. Peguei o que sobrou do buquê e notei que entre algumas rosas vermelhas havia um bilhete escrito a mão: "Maria Vitória, agradeço por esses cinco anos de paixão e companheirismo".
Triste o fim trágico de um amor no auge. Ao ler o bilhete, imediatamente deixei de maldizer o prefeito. Esqueci da escassa mobilidade urbana. Só o amor entre as coisas nos liberta. Pensar que Maria Vitória, que eu nem conhecia, esperava aquele rapaz para a celebração de um relacionamento tão duradouro. Em tempos de laços frágeis e pessoas escorregadias, cinco anos são uma revolução amorosa.
Pensativo, voltei para o meu carro. Voltei para a minha casa. Abri o portão correndo. Guardei o carro. Subi as escadas. Quando abri a porta, abracei forte a minha mulher e, pela primeira vez em dez anos de casamento, proferi o mantra dos apaixonados: Fernanda, eu te amo.
Diego de Moraes é estudante de Jornalismo em Londrina
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





