CRÔNICA - Corrente marítima
Vejo a força se esgotar. Os braços já são insuficientes para remar, e chegar à praia me parece impossível. Amores incompreensíveis, fracassos rotineiros; decepções vitais. Assim, levo a pesada vida com dores nas costas. Cabe a mim aguentar as pedras encontradas no meio do caminho e desviá-las, porém os extremos dessa mesma estrada estão presentes, jacarés que até mesmo servem de ameaça para minha sobrevivência.
O tempo escuro clareia minha memória: ela me deu um longo beijo seguido de um adeus profundo, amargo e impenetrável. Não pude me conter da tamanha perda que ali sofrera e a mudança drástica do meu destino que tão sonhei ao lado dela. Seus cabelos, cor de trigo, eram embalados em meus dedos. A vontade de arrancá-los era tanta que meu extinto animal logo deu lugar ao meu eu, preso às leis universais que o mundo expôs. No pensar, machuco, cutuco, sangro e lamento. Verbos decadentes, desencadeantes de sentimentos caóticos os quais me levou a navegar o mar.
O mar está agitado, e os tubarões se aproximam da carne viva e do sangue quente. As ondas embrulham meu estômago, ofuscando, até mesmo, minha visão. O raciocínio desaparece e em seu lugar o medo consome de tal maneira que as correntes marítimas me prende nessas águas turbulentas. Vim pegar o peixe e minha negligência me presenteia com esse acidente marítimo.
Prestes a desistir, rogo uma prece. Baixinho, sussurro uma oração calorosa e piedosa ao Pai Celestial. Amparo? Não! Quero a minha salvação, ou a salvação da alma, talvez. Morrer? Não! Se puder retardar meus últimos minutos de vida tornar-se-á, para mim, um prêmio grandioso. Esse dormir eterno não me é desejável.
Bruno Petri é estudante do Ensino Médio em Ibiporã





