De um tempo para cá tenho começado a perceber um fato profundamente perturbador e instigante: como é possível que o corpo sofra tanto como os embates da alma? É assim tão íntima e interligada a relação entre ambos? Pode algo intangível possuir semelhante poder sobre a matéria?... Dores e aflições de todo tipo assolam a carne enquanto a alma permanece nas sombras, reflexo do desequilíbrio e da angústia de que ela é vítima: perturbações inúteis, dúvidas vãs, ansiedades desnecessárias, mágoas desgastantes... É um padrão doloroso, constante, desestruturador e purificador ao mesmo tempo, pois se no início aparentemente nos aniquila, no fim do processo nos sentiremos ressuscitados, renovados fisicamente, reformulados psicologicamente e fortificados para enfrentar o próximo desafio.
Normalmente - e tenho a mim mesma como prova - corpo e alma adoecem ao mesmo tempo e ao mesmo tempo se curam, o desequilíbrio de uma derruba o outro e o paralisa, deixando a vida numa espécie de limbo até que o espírito recobre a lucidez e a clareza. E o mais espantoso é que não existe nenhuma forma de separá-los, de disfarçar, de enganar, de ignorar a situação, porque o corpo é, verdadeiramente, o espelho da alma, e não consegue escapar à sua influência... Por isso, estou começando a acreditar que a morte da fé e da vida espiritual pode significar, afinal, a morte do corpo.
Paz Aldunate é professora, dramaturga e escritora em Ibiporã

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