A vida sempre nos surpreende ainda que façamos minuciosos planos. Alguns dias começam e terminam estritamente idênticos a tantos outros. Mas tem aqueles dias em que o roteiro voa pela janela, carregado por um sopro de vento. E os Deuses riem. Assim me ocorreu certo domingo. Saí para caminhar com meu cachorro para afugentar algumas inquietações e ver passar as horas, eis que a vida me presenteou como se pretendesse me pagar uma dívida. Enquanto eu matava minha sede tomando um caldo-de-cana, depois de brincar com o Spike, no Zerão, havia uma garotinha sendo atazanada por outras duas crianças. E não foi necessária a interferência de nenhum adulto, porque a garotinha inesperadamente evocou seus super-poderes para se livrar das provocações:
''Preparem-se abelhas, agora ataquem'', disse ela, apontando para os meninos!
Eu já tinha sido avisado de que os maiores espetáculos da vida são encenados todos os dias nos lugares mais comuns e que são as pessoas anônimas que movem o mundo. Basta apenas um pouquinho de sensibilidade para nos inspirarmos pelo que brilha ao nosso redor. Às vezes aquela velhinha na feira só quer ter alguém para dizer ''bom dia'' e se sentir incluída. Às vezes o rapaz solitário sentado de frente para o mar só quer sentir a brisa acariciar seu rosto. Às vezes o garçom que te serve à noite inteira tem muito mais para dizer que apenas ''aceita isto?'' Porque a vida é uma erupção ininterrupta de poesia.
A vida em geral é aquele casal que dança furtivamente, sem transparecer as brigas e acusações ásperas do dia-a-dia. É aquela música que diz o que os amantes são incapazes de dizer. É aquele pai que leva o filho para a escola na garupa da bicicleta. É aquele abraço do qual a gente deseja nunca mais se soltar. São aqueles mistérios que não podem ser revelados sob pena de cairmos num abismo de descrenças. E, às vezes corremos tão apressadamente e distraídos que nem sequer nos damos conta dos dias incríveis que nascem e terminam sem a nossa contemplação ou sem um sorriso de gratidão e nos esquecemos de que já fomos crianças, mas que ainda somos capazes de fantasiar e nos divertirmos com tudo isto. Para que sermos tão receosos, se podemos convocar um exército de abelhas para espantar nossos temores?
Embora hoje estejamos todos competindo diariamente no trabalho, no trânsito, no namoro, sob todos os tetos etc. em uma guerra disfarçada dentro de cada um de nós, ainda podemos pensar em uma maneira de não embrutecermos perdidamente. E a imaginação é a nossa ponte para o mundo das coisas improváveis e possíveis também.
Tony dos Santos é arquiteto em Londrina

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