CRÔNICA - Como uma namoradeira
As noites dela começavam assim: chegava da escola, largava a mochila no guarda-roupa, o tênis vermelho de biqueira branca embaixo da cama e ia correndo para a janela, de uniforme mesmo. De lá ela via o menino abrindo o portão e partindo com a mochila nas costas. Ele devia estudar à noite, ela imaginava. E todo dia ela observava o rapazote, desejava boa aula em pensamento e ia jantar. Não, ele nunca olhava para cima ainda que parecesse que tinham um encontro marcado. E quando ele não aparecia, ela se preocupava.
Até que um dia, enquanto ela observava a casa dele do alto do terceiro andar do prédio vizinho, ela viu um caminhão de mudanças. A casa foi ficando vazia. E o coração dela também. Parecia querer parar aos poucos.
E de repente o portão não abriu mais nas noites seguintes e o rapazote nunca mais partiu com a mochila nas costas. Para quem ela mandaria bons pensamentos agora?
A vida seguiu e um dia, sentada num banco na área de lazer do prédio, ela o viu, na janela do segundo andar do prédio vizinho. Não podia ser verdade. Ele a viu e sorriu. Um sorriso familiar. Ela sentiu um calafrio na barriga. Será que aquelas olhadelas cronometradas pela janela, debruçada no parapeito como uma namoradeira, não significavam mais o medo da adolescência? Ele estava tão perto. Tudo era possível. E de repente ela escolheu a distância. Não estava pronta para encarar a realidade. A brincadeira, simplesmente, havia acabado.
Mariana Guerin é jornalista na FOLHA





