CRÔNICA - Comer em marmita
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de fevereiro de 2013
*Toshio Icizuca 
Outro dia, ao ver uma pessoa comer em marmita, dessas vasilhas feitas de alumínio em formato retangular, os leitores não imaginam o que é que fui lembrar: fatos da minha infância em Londrina, na década de quarenta, quando morava no sítio e ajudava os meus pais no trabalho de campo.
Naquela época meus pais eram agricultores em pequena propriedade, a primeira adquirida por eles depois de cumprir o contrato como colonos na região de Penápolis, no Estado de São Paulo. Na verdade, quando eles compraram, a área era uma mata virgem, pois Londrina nem existia, no local havia um povoado que, mais tarde, seria a futura cidade.
Ao ver aquela marmita, lembrei-me de todos os trabalhadores do campo, que seriam os boias-frias de hoje, que levavam seus almoços nas marmitas iguais a que eu vi. Ao chegar a hora da refeição, sentavam-se em qualquer canto, no tronco de uma arvore caída, no monte de terra resultante de arruação, ou em sacos de algum produto colhido, como café, arroz, feijão etc..
A nossa família também almoçava no campo, ou na roça como era chamada. Mas, o almoço não vinha em marmitas separadas, a minha mãe trazia todas as tralhas necessárias e a comida dentro de panelas e travessas. Como ela conseguia trazer tudo aquilo nas mãos, eu não tenho a menor ideia, pois quando ela nos chamava para o almoço, todos os pratos, talheres, canecas, e as comidas estavam sobre enorme lençol estendido no solo. Olha, carregar o almoço para cinco pessoas e caminhar cerca de quatrocentos metros não é brincadeira, precisava ser uma supermulher! Ela foi uma heroína. Aliás, todas as imigrantes foram, visto que esse tipo de trabalho recaía sobre os ombros das donas de casa. Ah..., preciso falar que almoçar sentado no chão em volta da toalha era gostoso, familiar e bucólico.
O fato estranho é que, tudo que eu falei sobre o trabalho da minha mãe fui me lembrar justo na hora em que vi a pessoa comendo em marmita... Talvez naquela época de imenso sacrifício para todos achasse que tudo que a minha mãe fazia era normal. Somente agora, depois de passados mais de sessenta anos, e sem a presença dela e do meu pai, pude reconhecer e agradecer o que eles fizeram para os seus filhos.
Toda vez que lembro fatos dessa natureza meus olhos não resistem: enchem-se de lágrimas de agradecimento aos meus pais.
*Toshio Icizuca é engenheiro, escritor, membro do Instituto Histórico e Geográfico de Piracicaba.
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].


