CRÔNICA - Com amor, papai
Antes dos onze anos eu só conhecia os livros das bibliotecas. E apenas lia o que encontrava nelas. Mas logo conheci os sebos. E me apaixonei.
O cheiro de poeira me pareceu tão convidativo, aquela luz lá no fundo do corredor que piscava, o chão cheio de pegadas e os vinis expostos como tesouros. O lugar era atulhado de estantes, que eram atulhadas de livros. Por vezes eu não acreditava nas raridades que achava quando ia lá só pra passar o tempo.
Essa é uma das coisas mais maravilhosas em sebo: as pessoas se encontram e encontram outras. Uma pausa pra escutar um LP do Elvis, pra procurar um livro sem compromisso nenhum, pra tomar um café, um momento de nada e tudo.
Mas, a coisa mais instigante e doce do sebo é que todas as coisas lá têm uma história. Além da narrativa que o autor criou tem a história daquele exemplar amarelado pelo tempo. Têm histórias de noites passadas em claro, têm histórias de mãos suadas, lágrimas, risos, gargalhadas e dores no coração.
Aquele monte de papel guarda tantos traços humanos. Hoje mesmo fui ao sebo, parte de uma rotina que faço questão de manter. Comprei um livro que toda mãe e tia falam pra gente ler quando é criança, "O Menino do Dedo Verde", e quando o abri em casa pra ler um pouquinho me deparo com uma dedicatória.
Eu que amo as duas histórias, a do autor e a dos leitores, li aquilo com tanto afeto. Com tanto carinho. Quase com o mesmo zelo de quem escreveu.
Lá estavam traçadas, em caneta, umas palavras simples. Bem assim: "Amada filha Alícia. Que a paz e o amor possam ser seus companheiros em toda sua vida. Natal/98". Da assinatura, não consegui distinguir um nome, mas o pai de Alícia deu pra ela este livro que toda mãe e tia adoram e nos indicam.
Pensei quantas pessoas já não compraram e venderam este livro. E imagino que, assim como eu, elas desejam que a paz e o amor ainda sejam companheiros da Alícia. Mesmo depois de quase quatorze anos.
Rafaela Magalhães é estudante de Jornalismo em Londrina
Crônica é a coluna da FOLHA2 publicada todas as quartas-feiras. A cada semana o leitor será brindado com diferentes autores. Os textos, com no máximo 30 linhas, devem ser encaminhados com telefone de contato para [email protected].





